Crítica- Coringa

Crítica- Coringa

2 de outubro de 2019 0 Por Barbara Beatriz

Amanhã (03/10) será lançado nos cinemas o novo filme do Coringa. A adaptação dirigida por Todd Phillips traz uma atuação impecável de Joaquin Phoenix, que nos mostra um Coringa completo. Ele encarna um vilão que no desenrolar da história se torna o símbolo de uma revolução. Sua risada, característica marcante do personagem, consegue transmitir pânico e até um certo incômodo, que permanece durante a maioria das cenas da produção.  

O longa se passa em 1981. Ele constrói seu sentido ao mostrar pontos do panorama da cidade, que criam um ambiente sujo e com aspecto abandonado para o plano de fundo da história do palhaço Arthur Fleck. Diferentes aspectos auxiliam na formação de uma  fotografia escura, que passa para o público a sensação de que os cidadãos de Gotham City vivem dias pesados.

É assim que a história do Coringa, ou melhor, de Arthur Fleck, começa a ser contada. Antes de tornar-se o Palhaço do Crime,  Arthur levava a carreira de palhaço apenas como um emprego que o manteria financeiramente até que pudesse atingir o seu verdadeiro sonho. Desde o início demonstra viver em meio a pensamentos conflitantes, que ora dão à audiência a esperança de que ele conseguirá alcançar suas metas, ora mostram a certeza de que ele está destinado a se tornar o tão conhecido vilão. Essas questões pioram com a pressão e críticas impostas pela sociedade diante de seu comportamento marcado por diferentes transtornos  neuro e psicológicos.

Foto: Reprodução Warner Bros.

O roteiro consegue conduzir uma narrativa na qual o lado humano de Arthur ganha voz em primeiro lugar. Em razão disso, há momentos onde parecem ser justificáveis suas ações até se transformar no verdadeiro Coringa, uma vez que acompanhando sua evolução conseguimos ver como cada fracasso o deixa ainda mais violento. Além disso, é mostrado também o impacto que questões políticas geram na vida do personagem, já que elas o prejudicam em diferentes momentos. Esse arco do filme é importante, uma vez que traz para as telas a presença de Thomas Wayne, peça que ocupa papel de destaque no quebra-cabeça que constitui a mente do Coringa.

Joaquin Phoenix teve que perder 24 quilos para conseguir nos mostrar todo o  sofrimento pelo qual o personagem passa. Sua atuação em conjunto com a trilha sonora escolhida, que leva o público diretamente aos pensamentos do Coringa, trazem um tom de sensibilidade até mesmo para as ações mais bruscas do palhaço. Isso proporciona a Joaquin atrair boa parte da atenção para si, deixando os outros personagens deliberadamente em segundo plano. Para completar o cenário, a trajetória pintada para essa versão do Palhaço do Crime cria terreno para que haja um caminho que faça ligação à evolução psicológica de sua versão do futuro da linha do tempo, interpretada por Heath Ledger, no filme “Batman: O cavaleiro das Trevas”. 

Foto: Reprodução Warner Bros.

O caos vivido por Arthur foi criado pelo roteirista Scott Silver em parceria com Philips. O roteiro é aliado de uma montagem perfeita que nos faz duvidar constantemente de tudo que vemos, trazendo tensão e conseguindo que quem assiste fique atento ao filme durante as duas horas nas quais ele se desenvolve. Todos os acontecimentos são intrinsecamente interligados, de forma que caso um deles passe batido, o espectador perde parte da construção do cerne do vilão. 

Por trazer para a pauta temas atuais como depressão, maus tratos e efeitos gerados pela exclusão, o filme tem uma pegada voltada por inteiro para o lado social. Ele mescla a “doença do século” com fatos que não estão distantes de algumas esferas da comunidade. Em razão disso um jornalista do jornal britânico “Telegraph” questionou a Joaquin, em agosto, se o público poderia captar a mensagem errada da produção. O ator escolheu abandonar a entrevista.

O filme foi selecionado para dois dos mais prestigiosos festivais de cinema: o de Veneza e o Internacional de Toronto. Seu apelo emocional é inegável, trazendo o Coringa para perto do público de todas as formas possíveis. O longa alcança seu objetivo de mostrar um olhar diferente do vilão, e não só faz isso com maestria mas consegue também deixar a audiência ansiosa por mais.

  • Por: Bárbara Beatriz Camello e Beatriz Aguiar.