Aprendendo a salvar vidas

Aprendendo a salvar vidas

14 de junho de 2019 1 Por Carolina Sampaio

Todos os anos, milhares de pessoas são vítimas de câncer só no Brasil. A doença ainda não possui cura e os tratamentos são muito invasivos, por isso, é causa de tantas mortes anuais. Maria Cecília Massena, de 19 anos, perdeu sua mãe para o câncer aos 14. Desde então, sempre que chegava a data do aniversário da mãe, a jovem passava o dia em casa chorando ou saía para tentar se distrair e evitar a tristeza. Mas, este ano, ela resolveu fazer algo diferente e homenageá-la através de um gesto que salva vidas.

Maria Cecília criou um evento no Facebook com o nome “Doar sangue”, convidando mais de 500 pessoas a irem ao Hemorio, no dia que seria aniversário de sua mãe, para ajudar a salvar vidas. E assim foi feito. No dia 22 de maio, a estudante doou sua primeira bolsa de sangue. Ela conta que estava se sentindo muito nervosa quando chegou ao local, mas, depois de feito, a sensação foi de orgulho e satisfação consigo mesma.

A vontade de ajudar o próximo foi uma das coisas que ela herdou de sua mãe. Desde a infância, era incentivada a separar roupas para doar a outras crianças que precisavam mais. Mas a empatia é apenas um dos pontos que elas têm em comum. Maria Cecília diz ser extremamente parecida com a mãe, tanto de jeito quanto de aparência, e adora essas semelhanças. Guarda sentimentos intensos de carinho e admiração. “A minha mãe era tipo uma faísca. Ela era contagiante, era a risada que ela dava e todo mundo dava junto”, afirma a jovem.

Seis meses depois do falecimento, Maria Cecília fez sua primeira tatuagem. No pulso direito, carrega escrito “Te amo” com a letra da mãe, que havia deixado algumas cartinhas, sendo uma delas para a filha. A menina só descobriu sobre a carta depois da perda. Tirou uma cópia, recortou o final, onde a mãe dizia que a amava, e então eternizou a pequena frase em sua pele.

Vera Maria Massena, avó de Maria Cecília, foi quem cuidou da menina e continua cuidando. Aos 80 anos, ela diz que admira muito a decisão da neta de dedicar o aniversário da mãe para salvar vidas, mas garante que, apesar do tempo, continua sendo um dia muito difícil: “Ela sente até hoje, mas a vida urge. É um dia atrás do outro, sempre tem um sol que nasce e a vida continua”.

Maria Cecília diz que sua avó sempre fez parte de sua criação, pois a mãe viajava muito a trabalho e elas ficavam duas ou três semanas sem se ver. Por isso, ela diz que a parte mais difícil não foi perder a mãe, mas aceitar que, dessa vez, não era temporário. Apesar da dor e da saudade, hoje, aos 19 anos, acredita que o que aconteceu tinha que acontecer e entende que foi importante para sua formação como pessoa. “Quando eu tinha 14 anos eu não entendia o que era o câncer, mas tudo que aconteceu me transformou. Apesar de eu ter sofrido, foi uma coisa que me tornou quem eu sou hoje e eu não mudaria”, conta a estudante.

A ideia de prestigiar sua mãe foi elogiada por muitas pessoas. Luiz Carlos Nunes, de 20 anos, é amigo de Maria Cecília e a define como uma pessoa incrível de coração gigante e achou sua iniciativa algo fantástico. “Me emocionou bastante e me cativou. Mostrou que, apesar de ser um assunto sensível, ela tem força para lidar com isso”, conta Luiz. O estudante não pôde doar sangue no dia, pois havia feito uma tatuagem recente e esta é uma das restrições para doação no Hemorio, mas já é um doador há dois anos. Maria Cecília pretende continuar sendo uma doadora e em cada ano, no aniversário de sua mãe, superar alguma barreira e fazer algo novo. Em alguns anos, quer fazer parte de uma ONG ou auxiliar no INCA. Para ela, ajudar o próximo é fundamental e a jovem carrega sempre consigo uma das maiores lições que aprendeu com sua mãe, o trecho de uma canção de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Reportagem: Carolina Sampaio