A reputação de Neymar às vésperas da Copa América

A reputação de Neymar às vésperas da Copa América

3 de junho de 2019 2 Por Lucas Vieira Pires

Às vésperas da Copa América, o normal seria estar preocupado com os adversários, com o time que vai entrar em campo, entre outras dores de cabeça. Contudo, esse é um dos menores problemas que a seleção canarinho terá pela frente no mês que vem na disputa da Copa América. O problema maior está mais próximo do que deveria, e se chama Neymar Júnior.

Para um país pentacampeão mundial e octacampeão americano, mais um torneio continental não teria tanto peso. Afinal, o foco poderia ser voltado para o mundial de 2022, no Qatar, e o de agora ser usado como um teste visando frutos melhores no futuro. Os repentinos fracassos impossibilitam tal ação. Após o fiasco do 7 a 1 em 2014, e uma eliminação precoce na última copa da Rússia, essas ocasiões tornaram a importância do título em urgência.

O atual cenário é de pressão, interna e externa, tanto para jogadores quanto membros da comissão técnica. São nesses momentos que craques e líderes do time precisam dar um passo a frente para, ao menos tentar, colocar ordem na casa. Mas parece que nossa referência na amarelinha vem andando na direção errada.

Neymar perdeu o jogo e a paciência na final da Copa da França. (Foto: Reprodução/Bench Warmers)

Neymar passou por mais uma temporada conturbada. Em seu segundo ano no Paris Saint-Germain, clube que pagou mais de 200 milhões de euros para contar com o talento do brasileiro, não há como negar que o negócio valeu a pena. Desde sua chegada, foram quatro títulos e jogadas que deixam até os adversários boquiabertos. O problema é que o jogador não para por aí.

Ele gosta de aparecer fora dos gramados, curte a vida de um rapaz de 27 anos e não pensa muitas vezes no peso de suas atitudes. A situação mais recente aconteceu na Copa da França, em que o time saiu derrotado, e na premiação, o brasileiro agrediu um torcedor adversário que estava comemorando o título e tirando sarro. Tal perda de controle tem relação direta com a pressão imposta sobre ele.

Tal cenário é, teoricamente, conhecido pelos torcedores brasileiros. Principalmente na década passada, era comum ver jogadores com atitudes semelhantes à de Neymar e que, muitas vezes, eram defendidos, taxados como exemplos a serem seguidos. Por alto podemos citar os multicampeões, Romário e Edmundo.

Romário, campeão mundial, não temia a repercussão de confusões. (Foto: Reuters)

Pedro Ramos, jornalista do Estadão, acredita que há uma romantização do futebol dos anos 1990, mas que não é algo cabível de comparação com a situação do atual capitão da seleção. “Por mais que esses jogadores carreguem histórico de polêmicas, nenhum deles possuía comportamento infantil que não assume seus erros e suas responsabilidades, que é o caso de Neymar.”.

Tal falta de responsabilidade questiona a confiança imposta nele. Neymar era o capitão da seleção até o episódio da agressão. Por conta disso, perdeu o posto para o lateral Daniel Alves. Os repentinos episódios negativos trazem à tona questionamentos sobre seu poder. “Deixar como capitão um jogador que nunca teve característica de liderança é temerário. Isso tende a afetar o vestiário, embora os companheiros parecem ter confiança nele.”.


Além de pai e empresário, Neymar, o pai de Neymar Junior, é um de seus maiores protetores. (Foto: Denis Doyle/Getty)

O apoio é algo comum na vida de Neymar. Por ser sempre abraçado, seja por pessoas próximas ou por fãs, ele parece não saber lidar com frustrações. E esse é o ponto abordado por Cristina Guerra, psicóloga especializada na área de esportes. “No caso dele, foram poucas frustrações. A pessoa precisa ouvir um não, aprender que não teremos sempre o que queremos na hora que queremos.“.

O comentário se refere ao fato de que desde pequeno o atleta  foi cercado por pessoas próximas, por ser uma das consideradas pérolas do futebol brasileiro. “Se frustrar é saudável, mostrar que há derrotas na vida é importante. Hoje ele é incomodado. A mídia incomoda e ele não sabe lidar com isso porque, para ele, não é normal”, completou.

A mídia tem grande papel na influência de tudo atualmente. Seja política, entretenimento, saúde, e no esporte não é diferente. Saber lidar com ela é um dos maiores desafios para um atleta que busca o sucesso nos dias de hoje. Cristina acredita que o jogador precisa ter uma identidade para que, em situações com essa, saiba o caminho certo para superar os problemas. “A opinião é passageira. Hoje é, amanhã não é mais. Ele precisa estar seguro para saber que é um fenômeno passageiro e que tem condições de passar por essa situação sem deteriorar sua integridade, identidade, ética.”

Cabe apenas à ele tentar uma solução para essa problemática. Soluções como ajuda profissional, saídas em horas mais apropriadas, não são inviáveis. O problema de Neymar é aceitar que as coisas não são sempre como o esperado. Sua reputação que era totalmente de ídolo, agora passa a ser manchada pelos episódios recentes. Torcedores são a prova mais concreta disso e deram sua opinião sobre o assunto:

E você, o que acha de Neymar?

O caso mais recente envolve o jogador em uma acusação de estupro feita por uma jovem de 26 anos que, no último mês, se encontrou com o jogador em Paris, local onde o atacante mora. O caso tomou maior proporção após Neymar se defender por meio de rede social. Contudo, laudos médicos feitos pela jovem no último dia 21 de maio, apontam hematomas e sintomas pós-traumáticos. A Confederação Brasileira de Futebol, CBF, já se pronunciou, afirmando que não pretende afastar o jogador da preparação para a Copa América.

A Copa América ocorrerá em solo brasileiro e terá início no próximo dia 14, na sexta-feira, onde o Brasil abrirá a competição contra a Bolívia, no Estádio Morumbi, em São Paulo. A imagem do nome da seleção referência no mundo está manchada. Até o momento, os olhares estão mais interessados no que ele irá fazer de novo, seja dentro ou fora de campo, do que a atuação dele em si, que deveria ser o mais importante.