Notre Dame: o conto que deu luz à Catedral

Notre Dame: o conto que deu luz à Catedral

22 de abril de 2019 1 Por Barbara Beatriz

“Faz hoje trezentos e quarenta e oito anos, seis meses e dezenove dias que os parisienses foram acordados ao som de todos os sinos, a plenas badaladas, na área que compreendia a Cité, a Universidade e a Cidade”. Com essa frase inicia-se o romance “O corcunda de Notre-Dame”, livro escrito pelo francês Victor Hugo, que em 1831 tornou-se famoso pelo mundo inteiro. Há uma semana, os parisienses também focaram seus olhares para a igreja. A razão? Esta não viria a tornar-se enredo de nenhuma história feliz.

O incêndio que atingiu a Catedral de Notre Dame na última segunda-feira não deixou feridos. Foi possível também salvar todas as obras que tanto chamavam a atenção no monumento gótico localizado no centro de Paris. No entanto, este acidente trouxe novamente à cena uma discussão já tratada no livro de Victor Hugo: como está a conservação dos patrimônios arquitetônicos populares?

Quasimodo chorando enquanto abraça a Catedral após o incêndio. // Ilustração: Cristina Freile

À época do lançamento da história que leva como um dos protagonistas o Quasimodo, a Catedral encontrava-se pouco cuidada. Com problemas em sua estrutura e ameaçando fechar, foi o romance quem trouxe atenção ao estado crítico no qual o monumento se encontrava e conseguiu incentivar que arquitetos realizassem uma reforma no lugar. “A difusão e as inúmeras traduções do romance de Victor Hugo com certeza ajudaram, ainda no século XIX, à valorização da catedral e de sua arquitetura a nível local e à sua paulatina configuração enquanto patrimônio histórico francês e, em seguida, mundial”, explica a doutora em História Natália Guerrellus, de 33 anos. Ela acredita que o livro inspirou as pessoas do ocidente a criarem um laço sentimental com a Catedral.

É impossível negar a influência da literatura no panorama moderno. Esta, no entanto, tem agora uma concorrência acirrada com filmes e séries lançados em aplicativos de streaming. Com o acesso cada vez mais fácil a estes produtos, muito do público que antes dedicava seu tempo livre à leitura agora prefere buscar diversão nas produções audiovisuais. Natália conta que este avanço na área cinematográfica exige das narrativas escritas uma espécie de modificação: “O que acontece hoje com a democratização do acesso ao digital é uma característica do nosso tempo e afeta todas as artes. A literatura vai continuar sobrevivendo, se continuar se adaptando”.

Cena da produção de 1923.

Apesar de desviarem parte do público dos livros, há situações onde as produções cinematográficas conseguem conversar com as obras literárias. Foi este o caso do “Corcunda de Notre-Dame”, que em 1923 seria transformado pela primeira vez em filme. Pouco mais de 70 anos depois, em 1996, foi lançada a versão em animação  do conto, produzida pela Disney. Essa, atualmente é a mais conhecida: “Eu assisti quando era pequeno, mas nunca foi um dos meus filmes favoritos. No entanto, a mensagem que passa, sobre o respeito com a diversidade e a luta contra opressores me fazia gostar de Notre Dame, ter um apego ao filme”, conta José Maurício Peçanha, estudante de design de 20 anos. Os estúdios Disney, conhecidos também por outras animações de sucesso decidiram doar 5 milhões de dólares à Catedral, para sua reconstrução após o incêndio.

Cena da produção de 1996, da Disney.

O andamento das doações ainda está em curso, após dois terços do teto do monumento parisiense terem sido queimados. Esse acontecimento fez com que as vendas do romance de Victor Hugo aumentassem, atingindo durante a semana o posto de mais vendido na plataforma da Amazon. Isso mostra o interesse do público por conhecer mais da igreja, uma vez que, após quase duzentos anos, esse foi o primeiro momento onde a construção novamente ficou em risco. “Essas tragédias, muitas vezes acabam trazendo uma curiosidade. É nesse momento que as pessoas até então “ignorantes”começam a buscar informações sobre o país, e acabam chegando, através das suas pesquisas, nas super produções que de alguma forma, em algum momento da vida, passaram despercebidas”, explica a pedagoga Ana Cláudia Conceição, de 43 anos.

Catedral de Notre Dame. // Imagem: AFP

É essa busca por informação que incentiva também a comoção das pessoas com o que aconteceu. Em uma semana já foram acumulados mais de 3,5 bilhões de reais em doações, mais do que o dobro arrecadado após o incêndio no Museu Nacional, no Brasil. No entanto, Ana Claudia acredita que, apesar disso, em pouco tempo as perdas geradas pelo incêndio em Notre Dame cairão no esquecimento da grande massa. “ Então somente os envolvidos diretamente continuarão valorizando a questão da perda,  do prejuízo material e cultural para o país, atualmente e nas próximas gerações”.

Reportagem: Bárbara Beatriz Camello