Intercâmbio voluntário no Quênia

Intercâmbio voluntário no Quênia

31 de março de 2019 1 Por Bruna Lima

“Quênia?”

Essa é, provavelmente, a pergunta mais ouvida por quem planeja férias no país, ainda mais para aqueles que tem Malindi como destino. A cidade, situada a 566 km de Nairóbi, capital do país, até atrai muitos turistas por causa de suas praias paradisíacas, principalmente italianos, mas os viajantes dessa reportagem são aqueles que vão para lá com uma motivação que vai além do dolce far niente nas praias do oceano índico: o volunturismo.

Volunteer + tourism = volunturism, em português, volunturismo. Essa nova forma de viajar leva muitos estrangeiros ao Quênia o ano todo. O número de pessoas que entram no país para serem voluntários é incerto, já que muitos recebem visto de turismo, devido à grande burocracia que envolve tirar um de voluntariado. Mas sabe-se que o Quênia está entre os 15 países mais procurados para esse tipo de atividade. Isso se dá pelo grande número de crianças órfãs e vulneráveis no país, um problema que afeta toda a África Subsariana. Estima-se que apenas no Quênia haja 1 milhão e 100 mil orfãos.

A viagem, que ao todo, durou 37 horas, começou no Rio de Janeiro no primeiro sábado de 2019 e terminou em Malindi, na segunda feira, dia 7 de janeiro. Para quem sai do aeroporto, depois de tanto tempo em trânsito, a presença de cabras, vacas, tuk tuks, motos e carros em uma mesma estrada de terra pode causar estranhamento. Barracas de rua que vendem frutas, peixe e roupa, formam o shopping da cidade e o barulho de pessoas falando altoem Swahili criam, para quem chega, um cenário caótico. As ruas do centro da cidade, no entanto, parecem encontrar harmonia no meio de tanto movimento. E existe beleza nisso.

 

 

Quando as cabras, as vacas e a confusão de vozes ficaram para trás, junto com o centro da cidade, a estrada pareceu mais calma. Joseph, o motorista do orfanato, virou à direita em uma rua bem esburacada e cheia de casinhas de barro e seguiu pelo que pareceu ser um tempo longo demais. Em um muro branco, se lia: “God Our Father Center for Needy Children”. Chegamos. Os olhares curiosos pra dentro do carro davam vergonha. Outra mzungu (termo em swahili para homem branco) tinha chegado para ser voluntária.

O orfanato

O God Our Father tem 2 hectares de área e abriga 77 crianças órfãs e vulneráveis. Dentro do orfanato funciona uma fazenda e uma horta, que serve basicamente para fazê-las aprenderem tarefas que podem ser usadas como fonte de lucro quando  fizerem 18 anos.

“Qual seu nome? De onde você veio?”. Logo após as introduções, vem a pergunta que mostra o quanto um voluntário precisa ter responsabilidade emocional para lidar com as crianças: quando você vai embora? Foi possível perceber que a vida deles é marcada pelas pessoas que chegam e vão embora o tempo todo. As crianças lidam de formas diferentes com essas chegadas e partidas: algumas demonstram afeto constante, grudam nos visitantes esperando receber algo em troca; outras são hostis, não fazem questão de ser legais ou educadas, pois sabem que eventualmente as pessoas vão deixá-las.

Era meio da tarde e havia, em média, 15 crianças no orfanato, o motivo delas não estarem na escola junto com as outras, era porque não eram apadrinhadas. As aulas começaram havia uma semana e os dirigentes do orfanato estavam correndo contra o tempo para arranjar os patrocínios que faltavam. No Quênia, os abrigos infantis não são do governo, eles apenas têm a função de mandar as crianças órfãs e vulneráveis para orfanatos, sem se preocupar se há estrutura ou capital. A forma que o God Our Father, e muitos outros abrigos, arranjam para pagar a educação das crianças é através de apadrinhamento, que normalmente é feito por estrangeiros.

Colonizador vs. EX colonizado

A percepção da cultura e do comportamento local, muitas vezes, não passava da observação. A dificuldade de comunicação era quase que palpável. Em uma das conversas com o dono do God Our Father, Samuel Njenga, pude confirmar o que vinha observando: apesar de a bandeira do Quênia enaltecer o sangue derramado pela independência contra o Reino Unido, esse sentimento não parecia ser compartilhado por toda a população. O discurso de colonizado continua presente, e não é culpa deles.

Samuel defende que a compra de grandes pedaços de terras por estrangeiros, para a construção de resorts, empresas de telecomunicação e fazendas, é algo bom para a economia queniana. De certa forma ele não está errado, mas deve-se considerar que o salário mínimo no Quênia é de KHS 13.572, o que equivale a 119 euros por mês. Em comparação ao do Reino Unido, que é de 1,463 euros por mês, e ao da Itália, onde as remunerações mais baixas giram em torno de 7 euros a hora, nota-se que o motivo pelo qual esses países “investem” no Quênia não é só para ofertar emprego.

A influência estrangeira em Malindi ocorre de forma sutil, não existem outdoors e shoppings. Porém, observando de fora do eixo África-Europa, percebi que a sutileza não exclui o fato de existir uma relação velada de colonizador-colonizado. Duas formas de turismo, muito comuns, ilustram essa situação: O turismo sexual e o turismo “assistencialista”.

“Vamos lá, eu te levo pra ver as estrelas do mar”, diziam os beach boys, apelido dado a jovens quenianos que ficam na praia a mercê de estrangeiras. Eles oferecem todos os tipos de serviço, desde mostrar estrelas do mar até prostituição. O filme Paradise: Love, do diretor Ulrich Seidl, conta a história de uma mulher mais velha que vai até o litoral atrás de jovens quenianos, caso recorrente em Malindi.

 

“Sugar mamma” é o termo dado a mulheres mais velhas que sustentam homens mais novos. / Paradise: Love

 

Homens estrangeiros de meia idade também vão para o país procurando mulheres negras mais jovens ou até mesmo crianças. O governo tem tentado diminuir a  prostituição na cidade, alguns policiais fazem rondas nas praias e resorts, mas infelizmente também conseguem ser comprados para “fecharem os olhos”.

Turistas com câmera em uma mão e pacotes de biscoito na outra: essa é uma das cenas que podem ser vistas todos os dias no God Our Father, especialmente nos períodos de alta temporada. “É tipo ir em um zoológico, levar comida pros animais, tirar fotos e ir embora” protestou Isabela Esher, uma das voluntárias do orfanato. Os estrangeiros chegam nos abrigos com guias turísticos e pagam uma certa quantia para entrar e tirar fotos com as crianças, gerando renda para o orfanato. O turismo assistencialista gera “N problemas, poderia ser toda uma matéria sobre eles, mas vale a pena tocar nos pontos principais.

Além de reforçar o complexo do salvador branco, o turismo assistencialista gera dependência e fomenta alguns orfanatos a deixarem as condições piores possíveis, para que os estrangeiros se sintam mais sensíveis a doar algo. Na minha segunda semana como voluntária, o God Our Father recebeu 49 crianças resgatadas de um abrigo não regulamentado. As crianças eram roubadas pelos donos do orfanato ou compradas de suas famílias que acreditavam nas promessas de um futuro melhor para os filhos.

O “orfanato” mantinha os menores em péssimas condições, cobravam estrangeiros para tirar selfies com as crianças e recebiam dinheiro e doações daqueles que sensibilizavam. No entanto, esse dinheiro era embolsado pelos donos. As crianças chegaram no God Our Father sujas, com doenças de pele e muito assustadas. Algumas delas nunca tinham ido para escola, algo que é crime no Quênia e não sabiam falar inglês, mas algumas sabiam falar italiano…  

 

Furando a bolha

Ser voluntária em Malindi me tirou de lugares confortáveis não só fisicamente, como intelectualmente. Descobri que tomar banho de mangueirinha e ajeitar o mosquiteiro toda noite não é ruim e dividir casa com 10 meninas desconhecidas também não. Confrontar preconceitos considerados extintos da minha mente foi doloroso e necessário, assim como reconhecer que o diferente é apenas diferente.

Quando voltei do Quênia, muitas pessoas me perguntavam “é pesado lá né?”, não, não é. O nosso olhar etnocêntrico não nos permite enxergar que existem inúmeras formas de viver, sempre consideramos a nossa como a única boa. Talvez, se fosse realmente “pesado” uma das crianças do orfanato não falaria na hora da oração diária:

estamos agradecendo por todas as coisas maravilhosas que Deus faz todos os dias. 

Esse vídeo tem a intenção de te trazer mais pra dentro da história. Dá um olhada!