Lugar de mulher também é no ambiente acadêmico

Lugar de mulher também é no ambiente acadêmico

10 de dezembro de 2018 0 Por Equipe do Portal

Como dois coletivos de mulheres universitárias atuam, comunicam-se e se posicionam

  • Reportagem Fernanda Andrade, Gabriella Rossi e Geovanna Bracet

As mulheres brasileiras representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de graduação, segundo o último levantamento do Censo, em 2016. Mesmo com essa representatividade feminina no ambiente acadêmico, algumas faculdades do país enfrentam denúncias de assédio, agressão e machismo dentro das instituições, sejam com alunas, professoras ou funcionárias. Casos desse tipo em universidades prestigiadas, como a Universidade de São Paulo (USP), já chegaram à imprensa. A partir desses acontecimentos, a direção desses institutos divulga notas de repúdio, promovem conversas entre os envolvidos nos casos e prometem investigações, mas é a partir da criação de coletivos femininos nas unidades de ensino que um conjunto de mulheres se une para combater as formas de opressão contra mulheres. “Sabemos que a violência, de todas as formas, contra a mulher, acontece em qualquer espaço e em qualquer situação. O coletivo existe para dar suporte e ser um lugar de partilha para uma minoria oprimida”, afirma Nicole Geminiani, de 19 anos, que integra o coletivo feminino geral da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC).

A organização de coletivos universitários pode servir como acolhimento, também promovendo um debate construtivo com pautas sobre gênero e luta com outros estudantes, sendo um meio para compartilhar casos contra as estudantes e todas as funcionárias. As redes sociais se tornaram aliadas na comunicação dos grupos de apoio a mulheres com o restante da faculdade. Elas utilizam Facebook, Whatsapp e perfis no Instagram para se conectar com o máximo de meninas, desde a divulgação de algum evento que envolva o coletivo até o recebimento de denúncias por mensagens. “Como é difícil ter contato direto com todas e queremos sempre alcançar mais meninas, divulgamos muitas coisas nas redes sociais. As reuniões são outra forma de contato, eu acredito. Quando vamos fazer algo grande, tentamos espalhar cartazes pela universidade também”, relata Nicole. Além disso, alguns coletivos possuem uma divisão de funções dentro deles e utilizam outras ferramentas da internet para garantir um atendimento e planejamento melhores através de um gerenciamento interno. Amanda Senna, de 23 anos e integrante do coletivo feminino do curso de arquitetura da PUC-Rio, explica:

– A gente fez um questionário no Google para entender a proporção de quantas meninas já se sentiram assediadas e quantificar/receber essas denúncias. O coletivo é dividido em grupos, como mídia, texto e acolhimento, e este último era o único que tinha acesso aos resultados.  Baseado nisso, nós computamos todas as denúncias para poder levá-las para frente. Muitas meninas e boa parte do corpo docente responderam o questionário e nós tivemos um código de ética para de fato não vazar essas informações.

Logo do coletivo geral feminino da PUC-Rio / Por Luma Rodrigues

Em um mundo tão conectado, as redes sociais são importantes por ser um modo de unir as universitárias e, desde o surgimento do coletivo geral e do curso de Arquitetura da PUC, eles passaram por mudanças e vêm se adaptando de acordo com as necessidades que surgem. O geral da PUC-Rio teve seu início em 2014, quando algumas estudantes decidiram se juntar para falar sobre temas relacionados às mulheres e servir como um apoio para aquelas que, de alguma maneira, se sentem assediadas e oprimidas. Com pouco suporte da universidade, o grupo de alunas passou por altos e baixos, quase chegando ao fim em 2018. Nicole, uma das novas organizadoras, vem tentando reerguê-lo ao longo deste ano, fazendo reuniões mensais, promovendo mesas de conversa, debates e produzindo camisetas, bottoms e peças de artesanato para gerar lucros que serão investidos nas ações do grupo. “Eu vejo o coletivo da PUC como um brotinho que ainda está lutando para crescer e fortificar suas raízes entre as mulheres. Sempre procuramos ressaltar o papel da mulher em algo central da sociedade. A visibilidade feminina, acredito, tem sido um foco nosso”, diz Nicole.

Ainda na PUC, um coletivo específico do curso de Arquitetura foi formado em 2013 após denúncias de assédios dentro da faculdade. Professoras desse curso se uniram às estudantes para fazer uma rede de acolhimento, oferecendo apoio e mostrando a importância da união das mulheres no ambiente acadêmico. Hoje o grupo conta apenas com estudantes, mas indo em busca de pessoas com engajamento ou mesma ideologia delas. Amanda afirma que foi fácil montar o coletivo, entretanto a maior dificuldade tem sido em como lidar com esses casos, já que “esse caminho é complicado, porque não existe uma regulamentação na faculdade. Então esse é o nosso desafio, de saber lidar com isso e não expor as vítimas”. Além da complexidade de se enfrentar esse tipo de situação, assim como outros coletivos, este sofre com a falta de recursos que afeta no aprimoramento do grupo, não permitindo que elas produzam materiais de campanha ou criem uma rede de comunicação no Google. Apesar disso, o coletivo de arquitetura da PUC promove reuniões entre as mulheres da universidade e ações com temas ligados a elas, como uma que espalhava painéis pela faculdade que mostravam a presença e importância da figura feminina na arquitetura. A psicóloga Soraia Zambrano, que atende jovens em seu consultório, aponta que:

– Mesmo sendo importante, é difícil convencer as estudantes a participarem, por questões de interesse e prioridades diferentes e mesmo as alunas que se dispõem a participar, muitas vezes negligenciam o espaço, por acharem que são secundários. A construção do coletivo feminino deve partir do comprometimento grande com a participação de cada aluna, pois demanda muita discussão.

Painel feito pelo coletivo de arquitetura da PUC-Rio / Acervo do coletivo

Em questão da divulgação dos casos de assédio, agressão e machismo a mulheres dentro das faculdades, uma mesma opinião dos dois coletivos é a falta de cobertura da mídia. Algumas alunas e professoras se unem com o intuito de expor esses casos para que cheguem na imprensa, que por muitas vezes só noticiam quando tem muitos envolvidos ou grande repercussão na internet. Um dos casos mais recentes, ocorreu na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde mais de 100 casos foram relatados por alunas que denunciaram professores e colegas de classe por abusos, agressões verbais e estupros. As mulheres dessa instituição se mobilizaram criando um formulário online para que denunciassem as situações. Além disso, publicações foram feitas na página do Facebook do “Coletivo de Mulheres Alzira Reis – Saúde UFMG” para incentivar quem tivesse sofrido qualquer tipo de assédio moral ou físico. Entretanto, mesmo tendo ocorrido em uma universidade federal, a reportagem só foi feita pelas emissoras locais e não ganhou destaque nacional. “Eu acho que a cobertura jornalística é muito pequena, seria ótimo se houvesse mais apelo, fossem um pouco mais atentos ou existisse um portal que trouxesse isso a público”, sustenta Amanda.

Integrantes do coletivo geral da PUC-Rio no ato #EleNão / Acervo do coletivo

Essas acusações envolvendo professores, alunos e funcionários se enquadram na Lei 10.224, criada em 2001, que define o assédio sexual como “ato de constranger alguém com o intuito de obter vantagem sexual”, podendo usar da sua posição hierárquica superior (cargo ou função) para se sentir no direito de tomar atitudes como essa. Valendo lembrar que não é só o ato sexual que é considerado assédio, sendo assim, essa medida não garante que as mulheres se sintam seguras no meio acadêmico. De acordo com Dandara Franco, de 20 anos e estudante da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Rio), que não possui um coletivo de mulheres, “a necessidade de grupos assim é a necessidade de sobrevivência na sociedade, não é um capricho. A sociedade faz questão de esmagar a gente diariamente, mas temos que resistir o tempo inteiro”. Rosana Freitas, de 23 anos e também da ESPM, afirma que:

– Muitas meninas hoje em dia não têm noção do que é assédio, violência psicológica, então esses assuntos precisam ser debatidos e discutidos num local seguro. E eu acho que os coletivos vêm exatamente para isso.

Em relação à posição hierárquica nas universidades, mesmo sendo maioria nos cursos de graduação, as mulheres são minoria quando se trata de professoras lecionando nas instituições de ensino superior. Segundo o censo de 2016, elas representam 45,28%, entretanto acabam recebendo menos que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções. Para a cientista política e professora Karla Gobo, elas estão em poucas posições de poder pois “o Brasil é um dos países que menos tem representação feminina no mundo e também um dos piores na América Latina”.  O território brasileiro entrou para a lista de lugares que mais matam mulheres, ficando com a quinta posição, num total de 83, segundo o mapa da violência realizado em 2016. “Somos um dos países que mais matam mulheres pelo simples fato de sermos mulheres. Mulheres lésbicas são vítimas de estupros coletivos. Somos um dos piores países para se nascer mulher”, declara Karla.

No entanto, um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março deste ano, apontou que as mulheres têm um nível acadêmico mais avançado que os homens e mesmo assim chegam a ganhar menos. “Ganhamos em média 30% a menos do que os nossos colegas homens na mesma posição. Estamos em poucas posições de poder. Não temos a independência reprodutiva”, diz a professora. Na USP, por exemplo, de acordo com o relatório ElesPorElas, apresentado pelo Programa ONU Mulheres, em 2016, apenas 15,4% são professoras titulares e, de 18 pessoas na gestão, apenas três são mulheres. Quando se cogita cargos para negras e transexuais, esta porcentagem pode chegar a zero.

Além da falta de representatividade feminina na parte docente dos ambientes acadêmicos, as formas de lidar com as denúncias de situações contra as mulheres por parte das instituições também são questionadas, além do posicionamento e formas de combate. Na PUC-Rio, segundo Nicole Geminiani, não há políticas de enfrentamento do machismo, e mesmo tendo protocolos para os casos de assédios, eles são muito burocráticos, tendo a falta de uma institucionalização, ou seja, um estatuto para não tolerar esse tipo de situação. Para Amanda Senna “não existe uma regulamentação para isso e o que acaba acontecendo é que a reitoria chama o assediador e a pessoa assediada para uma conversa e ficar tudo bem, o que se torna constrangedor”. Nicole também se mostra contra a posição que a instituição toma:

– Eu acho que uma faculdade, como um espaço de reflexão e conhecimento, deveria se posicionar radicalmente contra qualquer ato desse tipo, independentemente de quem venha. O essencial seria ter medidas preventivas, como campanhas contra o machismo, aulas sobre a questão das mulheres nos cursos, entre outros. As alunas devem se sentir apoiadas diante de qualquer violência que venham a sofrer.

Com a falta de uma política mais rígida nas instituições, que produzem o conhecimento e os futuros profissionais em diversas áreas, temas que se somam às atitudes contra as mulheres, como a questão de gênero e o feminismo, precisam ser mais debatidos dentro de um ambiente acadêmico. “Só de ter a presença do coletivo no meu curso, mostra a urgência e que a necessidade é uma realidade prática. É maravilhoso ter uma rede de apoio por trás de mim e mulheres que enxergam o mesmo que eu. Hoje em dia eu não tenho medo e não me calo”, relata Amanda. Uma faculdade que se dispõe a ser inclusiva e de qualidade, tem por responsabilidade a difusão dos saberes e das discussões realizadas por figuras femininas. Levar os debates a público é essencial, visto que as mulheres estão se unindo para combater também a hierarquização do gênero masculino sobre o feminino. Desta forma, as instituições precisam dar apoio a grupos de representatividade e acolhimento, fazendo jus a uma sociedade mais justa e igualitária. “Os coletivos são importantes não apenas para trocar experiências e buscar alternativas. No futuro eles também serão fundamentais como forma de resistência e pressão”, assegura Karla Gobo.