Bate-papo com Tizuka Yamasaki

Bate-papo com Tizuka Yamasaki

23 de novembro de 2018 0 Por Caio Garritano
  • Reportagem de Beatriz Lessa e Carolina Souto

De uma simplicidade surpreendente, foi vestindo calça jeans e tênis branco que a premiada cineasta Tizuka Yamasaki chegou ao auditório da ESPM na última quinta-feira (22) para a roda de conversa seguida da exibição do seu novo filme Encantados. O longa-metragem foi gravado em 2008 e finalizado em 2014, mas só foi lançado no início deste ano. Durante o bate-papo, Tizuka, que se define como diretora de audiovisual, já que dirige para cinema, televisão, propagandas e até óperas, falou sobre as dificuldades da carreira, das gravações e do cinema brasileiro.

Tizuka Yamasaki durante bate-papo no auditório da ESPM./ Foto de Carol Souto

Sua última produção, Encantados, é baseada no livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó”, de Zeneida Lima. O enredo narra a história da própria autora que aos 11 anos precisou seguir a vida religiosa como Pajé. A protagonista é interpretada pela atriz Carolina Oliveira e o elenco conta com nomes de peso como Thiago Martins, Letícia Sabatella, Dira Paes, Cássia Kiss, Fafá de Belém, Laura Cardoso e Ângelo Antônio. José Mayer também fez parte do filme, mas não compareceu aos festivais pela repercussão das denúncias de assédio contra ele que aconteceram em 2017. “A própria Zeneida ligou para ele pedindo que ele fosse à estreia, mas por algum contrato com os seus advogados, ele não pôde ir”, afirmou.

Tizuka explica que em todos os seus filmes de cunho religioso, ela primeiro estuda sobre a religião que irá ser retratada, para que não se aproprie de certas culturas, ou a exponha de forma equivocada. Além de dizer que enquanto está produzindo a obra, passa a acreditar naquela fé: “Enquanto estou fazendo o filme que aborda aquela crença, eu me torno daquela religião” .

As dificuldades da carreira foram o ponto alto do bate-papo. “Se você não ama cinema, não vá fazer. Não vale a pena” enfatizou Yamasaki para o público composto majoritariamente por estudantes da área. Ela foi aprendiz do icônico Glauber Rocha, com quem dividiu o set de A Idade da Terra como sua produtora assistente. Apesar da grande admiração que sente pelo diretor, conta que o convívio profissional nem sempre foi fácil: “Eu chorava todo dia no banheiro”. “Um dia, estava tudo pronto para as gravações. Cinquenta cavalos, figurantes, halterofilistas… E de repente ele dizia que não queria filmar naquele dia”, recorda.

Aos 69 anos, Tizuka já dirigiu e produziu mais de 13 títulos e conta que muitas vezes é preciso escolher entre uma vida prazerosa no cinema e a vida pessoal. Hoje, a diretora é mãe de 3 filhos, mas assume já ter feito um aborto para impedir que a gravidez atrapalhasse as filmagens que fazia na época. Os reflexos dessas escolhas ainda estão bastante presentes na vida da cineasta. Sua filha, ela conta, não tem uma boa relação com a profissão da mãe: “A minha filha odeia cinema. Ela é uma ótima roteirista, mas a maior parte da adolescência dela, eu estava em um longa. Ela sentiu a minha falta quando precisava de mim”.

Neta de japoneses, a diretora é apegada às suas raízes e, no início da carreira, sonhava em retratar a realidade de tantos imigrantes que vieram para o Brasil como seus avós. Antes de dirigir seu primeiro filme, Gajin – Os caminhos da Liberdade, Tizuka foi muito criticada por todos, inclusive por seus colegas de profissão: “Eles diziam que imigração era um tema muito árido, não era assunto para cinema”. Mesmo assim, ela insistiu em tratar da temática e foi vencedora de prêmios no Festival de Cannes e no Festival de Gramado. Ela foi pioneira do Cinema de Emoção em uma época em que as produções brasileiras faziam parte principalmente do Cinema Novo ou do Pornochanchada.

Yamasaki revelou que não gosta muito dos festivais, por ter que conviver com atitudes falsas de outras pessoas e que é no set de gravações que ela encontra o encanto da profissão. Certa vez, o filho foi visitá-la e observou: “Mãe, sabia que você transita melhor aqui do que em casa?”. “Em casa fico igual barata tonta, abrindo tudo que é gaveta”, ela brinca. A diretora lembra ainda que na época do governo de Fernando Collor teve que ficar muito tempo sem filmar, o que a fazia sentir falta até do ruído da câmera.

Ao ser perguntada durante a palestra sobre o Lua de Cristal, filme que dirigiu e foi estrelado por Xuxa Meneghel, disse que o longa se tornou um clássico e marcou a infância de muitas pessoas: “Fui resolver umas coisas que tem a ver com um projeto meu na FAB [Força Aérea Brasileira] e o Major foi falar pra mim que amava o filme”. A premiada cineasta ainda se surpreende com as proporções que a produção tomou. “Numa exibição do filme, um dia desses, tinha uma sala cheia de adultos de 30 e 40 anos” fala impressionada.

Com a mesma espontaneidade que entrou no auditório, Tizuka o deixou depois de ter respondido todas as questões apresentadas pelo público, que encantado com o jeito autêntico da diretora, se despediu com aplausos.