Feliz dia do mestre para quem?

Feliz dia do mestre para quem?

13 de outubro de 2018 0 Por Caio Garritano

 

  • Reportagem de Carolina Souto e Matheus Pardellas

Professores relatam situações de violência e agressão no dia a dia de escolas públicas e privadas.

Longas horas de trabalho, salários baixos e desvalorização da profissão. A jornada do professor começa dentro da sala de aula e se estende para fora dos muros da escola. Os aborrecimentos também. Seja no ensino público ou no privado, nas escolas ou nas universidades, a rotina do educador é marcada pelo descaso e o desrespeito. Além das agressões e desaforos por parte dos alunos, os professores do Rio de Janeiro ainda encaram responsáveis negligentes e, por vezes, rudes em uma cidade hostil. Para Pedro da Silva (nome fictício), professor orientador e coordenador pedagógico de uma escola municipal, próxima ao Complexo do Alemão, a violência do entorno também deve ser tratada como agressão. “É gravíssima. Afasta, tira o ritmo do aprendizado, da frequência do aluno na escola. Cria ali um temor para toda a comunidade escolar: professores, familiares, vizinhos e alunos” afirma o coordenador.

Reprodução: CHARLY TRIBALLEAU / AFP

Hoje, o Brasil se encontra no primeiro lugar do ranking da violência contra professores. Segundo a pesquisa mais recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) realizada em 2013, 12,5% dos professores ouvidos no Brasil alegaram ter sido vítimas de agressões verbais ou intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. Apesar desse cenário ser comum às instituições públicas e privadas, Afonso Celso Teixeira acredita que essas agressões se manifestam de formas distintas. Para o atual diretor do Sinpro-Rio, sindicato de professores da rede particular, e antigo diretor do SEPE, sindicato estadual dos profissionais de educação, nas escolas privadas, geralmente a violência vem “de fora para dentro” com pais e responsáveis, por exemplo, interferindo nas aulas e censurando a forma como um conteúdo é apresentado. “Isso aumentou atualmente, mas sempre aconteceu” diz o diretor. Já nas escolas públicas, ela ocorre de outra maneira. Para ele, acontece principalmente dentro das salas de aula: “É de uma forma mais violenta, com desrespeito, com gritos e agressões”.

Mesmo com esse paralelo feito por Afonso, essa não é uma regra geral. Tendo ele mesmo relatado um caso de agressão que ocorrera em uma faculdade privada. Segundo o diretor, um aluno que estava cursando direito e que trabalhava como policial militar, quando fora reprovado agrediu fisicamente seu professor. Assim também relata o coordenador pedagógico Pedro da Silva: “Tivemos um aluno que vinha criando problemas e atrapalhando as aulas. Já havia sido chamado o responsável, mudado de turma, já havia sido conversado várias vezes com o aluno. E aí a solução foi aplicar o regimento escolar e encaminhá-lo a outra escola. Quando eu dei a informação ao aluno, ele se transtornou e ficou desesperado. Ele ainda falou que ia “fazer e acontecer”, que ia falar com os amigos e que isso não ia ficar assim”.

Diferente do que se imagina, não são agressores apenas os estudantes adolescentes ou jovens adultos. Como relata a professora, Joana Pereira (nome fictício), que sofreu agressões físicas e verbais por parte de um aluno do 2º ano do ensino fundamental: “Ele sabia falar todos os tipos de arma, todos os tipos de drogas, ele sabia dizer como usava. Assim, ele só tinha sete anos”. Apesar de ter sofrido muito com a situação, que durou um ano letivo, a educadora lembra que essa violência não foi um caso isolado: “Era bem difícil e essa, eu acho, é uma situação muito recorrente. Todos os professores passam ou vão passar algum dia por isso, infelizmente”. A coordenadora Luísa Dias (nome fictício) também relembra casos de assédio verbal por parte de alunos de uma rede particular na Zona Norte do Rio. Segundo a professora, os estudantes afirmavam que seus pais pagavam o salário dela. “Ele não paga o meu salário, quem paga o meu salário é o empregador para o qual eu trabalho. O seu pai tem um contrato de mensalidade com a escola. Eu não trabalho diretamente para ele, eu trabalho para uma direção. Da mesma maneira que eu respeito você, seu pai, sua mãe, sua família, você tem que me respeitar” advertiu a coordenadora.

Assédio moral e sexual, agressão física e injúria racial são alguns dos tipos de violência que educadores relatam terem sofrido por parte de pais e responsáveis. A coordenadora Luísa Dias afirma ter sido alvo de perseguição pelo pai de uma aluna da escola em que lecionava na época. Segundo Luísa, o posicionamento da direção do colégio foi fundamental para que o homem parasse de assediá-la: “O diretor telefonou para ele e exigiu que ele parasse com aquele comportamento. Caso contrário, ele iria entrar com medidas mais drásticas. Felizmente isso passou”. Casos de assédio moral permeiam a carreira da professora que começou a trabalhar muito jovem. “Logo de início, eu fui colocada em situações constrangedoras com pais tentando avaliar o meu conhecimento nas reuniões. Eles me perguntavam questões idiotas em grupo e me questionavam sobre quais títulos eu tinha até então” relata.

A professora de educação infantil, Ana Rodrigues (nome fictício), também alega ter sido vítima de violência. Ela relata ter sido agredida pela mãe de um aluno que fazia serviços de transporte escolar para outras crianças da mesma escola. Certo dia, um estudante, de 5 anos, que costumava ir e voltar com essa mãe, após ter sido cancelado o contrato, seguiu ela na hora da saída. Ana diz não ter sido informada que o menino não fazia mais parte do transporte. Isso foi o suficiente para que a educadora fosse agredida e vítima de racismo por essa pessoa mais tarde: “Ela começou a gritar: sua macaca, sua ninguém, sua preta fedida e outros palavrões. Quando ela viu que não conseguia me agredir só com a mochila de rodinha da menina, ela tentou jogar uma carteira de ferro em mim. Eu fui me esquivando e quando percebi, estava dando voltas na sala, com ela atrás de mim. Alguns pais vendo e tentando impedir e o restante das crianças, pois era hora da saída, em pânico”.

Nessa reportagem os nomes das vítimas foram alterados a fim de proteger e preservar a integridade dos educadores. É comum aos professores o medo da exposição, porque além de sentirem medo de sofrerem retaliação por parte dos agressores, temem também perder seus empregos. “A coordenação devia apoiar sempre o professor, mas não é isso o que acontece. Geralmente é ao contrário, entendeu?” afirma Joana. Ela conta ainda que precisou buscar ajuda fora da escola para superar o caso: “Eu tive que aprender a lidar emocionalmente com isso. Eu comecei a frequentar psicólogo para ver se eu conseguia lidar melhor. E assim, desculpas da família ou da direção ou mesmo do menino, eu nunca recebi”. Para Luísa Dias, essa realidade é reflexo dos tempos atuais: “A gente vive a época do descaso e o professor vive esse descaso”.