Nossa Senhora Aparecida: a imagem da tolerância?

Nossa Senhora Aparecida: a imagem da tolerância?

12 de outubro de 2018 0 Por Yasmim Ribeiro
  • Reportagem de Yasmim Ribeiro

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, conhecida como  Nossa Senhora Aparecida, é a padroeira do Brasil. Venerada na Igreja Católica,  é representada por uma pequena imagem de terracota da Virgem Maria, atualmente alojada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, localizada em São Paulo.

Para Mariani Conceição de Albuquerque, que trabalha como contadora no Tribunal Regional Federal (TRF), a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida transcende uma religião. Ela nasceu no dia que a aparição de Nossa Senhora da Conceição é celebrada pela igreja católica e conta que sua ligação com a santa veio desde esse dia. “Meu nome, a imagem que recebi da minha vó, que era umbandista, quando eu nasci me tornaram devota antes mesmo de eu me definir como católica. ”, conta ela.

“A imagem da tolerância” é um documentário sobre a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, que é o maior santuário religioso do Brasil,  o quarto santuário mariano mais visitado do mundo. As cineastas Paula Trabulsi e Joana Mariani centralizam o filme em torno da diversidade de devoções que a catedral abriga, segundo a crítica do jornal O Globo. Além de católicos, há entrevistas com budistas, umbandistas, judeus e figuras de outras matrizes religiosas, a fim de salientar o caráter acolhedor, e o símbolo de unificação de fé que a imagem representa.

Wilson Tomás, tem 65 anos é candomblecista e diz que sempre foi devoto de Nossa Senhora Aparecida, “isso já vem desde que eu era criança, eu tenho muita fé nela, é lindo demais sentir essa confiança em um símbolo tão completo, tenho muita fé. ”, declarou o cabeleireiro

Para o católico Robson Alcântara de 57 anos, que conheceu Nossa Senhora pela própria religião, é difícil explicar o que sente pela imagem: “Maria é amiga, é dedicação profunda, é compreensão, Maria é tudo”. Angélica Maia, funcionária pública do metrô aposentada, tem 60 anos, é messiânica e reforça as falas de Robson ao afirmar que Maria é a mãe de todos para ela, “Maria é a mãe que abraça e me acolhe”, diz.

“Sou espiritualista. Gosto de estudar, cada vez mais estou envolvida nos estudos espiritualistas, esotéricos e ocultos”, relata Adriana Calheiros que tem 45 anos e é astróloga, mas não possui nenhuma religião definida. Para ela, Nossa Senhora é a representação da Natureza de Gaia, “é a ‘matéria escura’, onde tudo se cria, de onde vem a vida, é o princípio de tudo”.

 

Legenda: Imagem de Nossa Senhora Aparecida| Créditos: Yasmim Ribeiro

Jorge Henrique Duarte de 50 anos, auxiliar administrativo também afirma o conceito de universalização proposto pelo filme. Ele é kardecista e diz que Maria vai além da figura de uma mãe, “ela é uma energia de nível superior”. Norma Sueli de Góes, tem 60 anos, trabalha como bibliotecária, também é Kardecista e completa a ideia de Jorge, afirmando que Nossa Senhora Aparecida é símbolo de amor e compaixão, “não há espaço para intolerância”, confirma.

Maria foi proclamada Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, em 16 de julho de 1930 pelo Papa Pio XI, mas o país comemora a data no dia 12 de outubro, que marcou, em 1980, a proclamação de feriado e consagração do Santuário Nacional de Aparecida pelo Papa João Paulo II.

Rayanna Nascimento, 18 anos é cristã-protestante e diz o quanto Nossa Senhora a ajuda a seguir os ensinamentos da sua religião. “Ela é um símbolo de obediência a Jesus que tantas vezes não é praticado por nós, ela gerou nosso maior amor, isso tem uma razão”, afirmou a estudante.

Entretanto, Aline Marins, 28 anos confirma o resultado de uma pesquisa realizada pela cientista social Joanita Kalesi, em 2016, que aponta que nem todas as pessoas que se sentem representadas por algum símbolo de uma religião específica, e que na verdade isso poderia inibir a liberdade religiosa. A advogada diz que não tem Nossa Senhora como símbolo de unificação da fé, mesmo sendo candomblecista e cultuando energias ligadas a natureza, pela vivência espiritual que possui: ela entende que a única figura possível para universalizar a fé é Deus. “Nossa Senhora é extremamente ligada ao catolicismo e a umbanda com o sincretismo, de forma que fica muito difícil para quem cultua outras crenças se apegar a ela como um símbolo. ”, relata.