Esforço, aprovação e permanência

Esforço, aprovação e permanência

5 de outubro de 2018 0 Por Caio Garritano
  • Reportagem de Beatriz Bastos e Gabriel Morais

As trajetórias e as dificuldades de quem conta com o sistema de cotas

No dia em que foi divulgado o resultado da UERJ para o primeiro semestre de 2013, Maiara Roque estava na casa da mãe com suas irmãs, quando uma delas avisou: “caramba, saiu a lista de aprovados”. Todos ficaram tensos e foram para a frente da tela do computador. Maiara fechou os olhos e ouviu sua irmã dizendo que seu nome estava lá. “Aí, começou a gritaria, minha mãe começou a ligar para todo mundo. E eu estatelada, só pensava, ‘passei, passei, não acredito que passei’”, relembra a jovem. Maiara entrou para o curso de odontologia como cotista. Se não fosse por essa política, não teria sido

Durante o ensino médio, Maiara, hoje com 23 anos, conseguiu bolsa no Colégio Luso Carioca para fazer curso técnico na área de enfermagem. A mensalidade era de R$200.

Para ficar mais perto da escola, saiu da casa da sua mãe, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para morar com seus avós, no Complexo da Maré. Estudou lá durante todo o ensino médio e permaneceu depois de formada para continuar estudando, fazendo o pré-vestibular comunitário do Redes da Maré nas noites de segunda à sexta. Aos sábados, fazia outro cursinho comunitário. Esse, na Penha, e em horário integral.

O Redes é uma ONG que atua em cinco eixos, sendo um deles a educação. As aulas em todas as unidades começam às 18h30 e terminam às 22h45, de segunda à sexta. Em alguns finais de semana, os estudantes têm aulões interdisciplinares. Evaristo Neto, de 37 anos, é um dos professores de química do pré-vestibular. Ele dá aula no curso desde 2010 e conta que os alunos normalmente chegam com dificuldades do ensino básico, mas o trabalho é recompensador: “dos locais em que eu trabalhei, esse é o que eu mais percebo dedicação por parte dos alunos. É o lugar que eu vejo realmente que a educação pode transformar vidas”.

No ano de pré-vestibular, Maiara passou quase todas as tardes estudando na biblioteca do curso com alguns colegas. Um dos que mais a ajudou foi Aarão Rafael Rufino, de 26 anos, hoje estudante de ciências contábeis na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Maiara diz que estudar com Aarão foi muito importante. Isso porque os dois tinham facilidade em diferentes matérias: “ele me ajudava com matemática e eu o ajudava com biologia e química”. O estudante de contabilidade também dá créditos a Maiara pela aprovação e brinca: “a Maiara tinha tanta dificuldade em matemática que ela me fazia estudar em dobro para explicá-la”, conta rindo.

Às sextas, Maiara saía quase às 23h do Redes e sua rotina estudantil não havia acabado. Aos sábados, ela estudava em outro pré-vestibular comunitário, o Cederj, na Penha, das 8h às 17h. “Dependia do meu cansaço, na verdade. Se eu falasse: ‘dá, estou no pique’, eu ia a noite mesmo. Mas muitas vezes eu preferi voltar sábado de manhã porque era mais seguro”, conta. Após passar o dia inteiro no curso, ela aproveitava o restante do final de semana com sua mãe e irmãs. Na segunda, voltava à Maré e à rotina.

Ela passou na 5º colocação entre os cotistas negros e indígenas. Se fosse pela ampla concorrência, não teria sido aprovada. Segundo ela, o primeiro colocado entre os não-cotistas foi aluno do Santo Agostinho, “você imagina, eu, de escola de bairro, disputando de igual para um menino que estudou no, à época, se eu não me engano, o melhor colégio do estado”. E completa: “entrou também uma menina que era de um colégio alemão, que ensinava alemão e português junto. Gente do Miguel Couto. Essas escolas assim, bem boas. Você imagina… não ia, não tem como”.

O sistema de cotas no Brasil tem o objetivo de diminuir desigualdades socioeconômicas e educacionais. A UERJ, onde Maiara estuda, foi a primeira universidade a criar um projeto focado em cotas, colocado em prática a partir de vestibular de 2004. No dia útimo dia 11 de setembro, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) renovou a lei por mais 10 anos, determinando a regra para todas as universidades públicas do estado. De 2004 a 2012, ingressaram na Uerj, pelo sistema de cotas, 8.759 estudantes. Destes, 4.146 são negros autodeclarados, outros 4.484 usaram o critério de renda, enquanto 129 pelo percentual de portadores de deficiência/índios (segundo o livro “Direitos existenciais emergentes: uma análise sociológica de casos difíceis no Supremo Tribunal Federal”, de Benedito Fonseca e Souza Adeodato).

Em agosto de 2012, foi sancionada a lei nº 12.711, conhecida como Lei de Cotas, que determinava que, até 2016, todas as universidades federais destinassem metade de suas vagas no vestibular para estudantes oriundos de escolas públicas. Hoje, cada universidade pode ter seu próprio sistema. Segundo o IBGE, em 2005, 5,5% dos jovens pretos ou pardos de 18 a 24 anos frequentavam uma faculdade. Em 2015, 10 anos depois, o número foi para 12,8%. Mesmo com o aumento, a porcentagem de brancos nas mesmas condições ainda é quase duas vezes maior: 26,5%.

Na UERJ é necessário que o aluno comprove condição de carência socioeconômica para ingressar como cotista. A renda mensal bruta por pessoa na casa do estudante deve ser igual ou menor a R$1.431. Para cada curso, são destinadas 45% das vagas aos cotistas. Dessas, 20% são para pessoas que estudaram em escola pública desde o 6° ano do ensino fundamental até o 3º do ensino médio; 20% são para negros e indígenas; e 5% para pessoas com deficiência, filhos de policiais civis ou militares, bombeiros e de inspetores de segurança e administração penitenciária que foram mortos ou estão incapacitados de trabalhar em razão do serviço.

Quando vestibulando presta o ENEM e tenta uma vaga no ensino federal, é necessário que ele tenha feito todo o ensino médio em escola pública. As vagas para negros, pardos e indígenas será proporcional à soma desses em cada estado, de acordo com o último censo demográfico do IBGE.

Para Ana Carolina Mattoso, de 28 anos, doutoranda e professora de uma matéria eletiva na PUC-Rio sobre ações afirmativas, as cotas raciais são a promoção de uma justiça à educação e vão além de uma política assistencialista. Na sua opinião, a entrada dessas pessoas diversifica o ambiente universitário. “A faculdade com apenas alunos brancos produz um certo conhecimento que não é da realidade total. O sistema de cotas não é a principal ferramenta de combate ao racismo, mas é uma importante ferramenta de inclusão”. Além disso, ela aponta outros pontos positivos dessa política, “isso proporciona muitos fenômenos interessantes, como criação de coletivos negros e uma linha de pesquisa para a população negra”.

O historiador Luiz Felipe Fill, de 39 anos, explica que, em um contexto histórico, as cotas são um pagamento de uma dívida: “é uma forma de mudar, da gente ter pessoas que nunca pensaram em frequentar uma universidade, frequentarem. É ter doutores em todos os níveis sociais e étnicos”. Ele concorda com essa política, mas também diz que devem ser feitas melhorias na lei, “acho que tem que ter regras mais claras para pedir cota. Por exemplo, o sistema aqui no Brasil tinha que ver mais a questão da renda”.

Ana Carolina acredita que as cotas já estão consolidadas, mas também atenta para o baixo nível do debate nas eleições deste ano, principalmente, para o governo do Rio de Janeiro e para presidência, “debates de cotas no executivo são muito superficiais. É mérito ou não é? O debate tem sido, pelo que eu vejo, muito agressivo”.

Entre os planos de governo dos cinco candidatos à presidência que têm maior intenção de votos, segundo as últimas pesquisas DataFolha e Ibope, Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB) não falam nada sobre a política de cotas no ensino superior público. Fernando Haddad (PT) apenas cita o que seu partido fez em relação a isso enquanto estava no governo, mas não aponta novas questões. Marina Silva (Rede) diz que seu governo buscará a ampliação do acesso ao ensino superior, mantendo a política de cotas. E Ciro Gomes (PDT) diz que também continuará com essa política e, se necessário, ampliará.

Na eleição para governador do Rio de Janeiro, analisando também a proposta de governo dos cinco candidatos com maior intenção de voto de acordo com as últimas pesquisas, o único que cita as cotas é Tarcísio Motta (PSOL). Ele diz que “irá implementar uma política de permanência para alunos cotistas”. Wilson Witzel (PSC), Eduardo Paes (Democratas), Índio da Costa (PSD) e Romário Faria (Podemos) não mencionam a política em seus programas. Anthony Garotinho (PRP) estava entre os cinco, mas o registro de sua candidatura foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral, no dia 27 desse mês. Ele também não apresenta nenhuma proposta para cotistas no seu plano de governo.

Depois da aprovação de Maiara para odontologia na UERJ, um de seus primos comentou com sua mãe: “Ela tem certeza que vai fazer esse curso? Odontologia não é para ela”. Maria Lúcia Rodrigues, de 50 anos, respondeu sem pensar duas vezes: “O curso que ela vai fazer é o que ela quiser. Se ela passou, é porque ela consegue”.

Logo no trote, na primeira semana de aula, quando todos os alunos se apresentavam, Maiara entendeu o que o primo havia dito e começou a viver o que ela mesmo chama de “dilema”. “Eu ficava olhando as pessoas contando, e falava assim ‘gente, que galera é essa?’, era gente do PH, Santo Inácio. Fez pré-vestibular no A a Z, QI, não sei o que lá. Lugar que eu nunca ouvi falar. Tem gente que vem de Range Rover à faculdade. Você tem noção?”, conta a estudante. “Claro que também tinha gente da minha realidade, inclusive tinha uma menina também da Penha que era minha vizinha. Só descobri isso no trote”, completa.

Além da questão socioeconômica, Maiara diz que há pouquíssimos estudantes negros nas turmas de odontologia da UERJ, uma média de quatro em 25. “A questão é que ser negro é uma coisa auto identitária. Na minha sala, eu via outras duas pessoas como negras, mas acho que elas não se identificam assim, ou seja, na minha turma, que se identifica negra, só eu”, conta Maiara. A professora Fernanda Brito, de 40 anos, que deu aula para Maiara, confirma a informação. Ela é a única professora negra do curso, “interessante que estou há 3 anos lecionando na UERJ e nunca tinha parado para pensar nessa questão”. Fernanda reconhece que esse número é baixo há muito tempo, mas se diz contra a cota racial, “achei a ideia extremamente válida para tentar compensar uma desigualdade existente, mas tinha que ter prazo de validade”. E conclui: “a cota para negros eu sou contra. A minha cor de pele não me torna menos capaz do que pessoas com outras cores. Me orgulho de colecionar várias conquistas, aprovação em vários concursos públicos sem precisar mencionar a minha cor de pele. Fiz parte do doutorado fora do país porque, entre outros requisitos, tenho inglês fluente. A educação de qualidade tem que ser um direito de todos. Temos que lutar para isso”.

Apesar da universidade ser pública e, portanto, gratuita, manter-se não é tão fácil. Os alunos cotistas têm direito a uma bolsa-auxílio de R$500 por mês para comprar material, pagar transporte, alimentação e outras necessidades, mas só a lista de material que os professores passam chega a ficar entre R$2 mil e R$3 mil por semestre, podendo ser ainda mais cara. Por isso a mãe de Maiara precisa ajudá-la, e, mesmo assim, às vezes não consegue comprar todos os materiais, “se você não tem o material, o professor te olha feio. Se você diz que não teve como comprar, o professor te olha feio”. Além disso, afirma que muitos professores pedem materiais que nunca são usados, “é um dinheiro que vai te fazer muita falta. Eu tenho um armário com vários materiais embalados”. A faculdade oferece um banco de materiais para cotistas, mas ainda não é o suficiente.

Ela diz nunca ter sofrido racismo de forma direta, mas percebe diversos olhares. Em alguns momentos, os próprios professores falam que é necessário para um dentista vestir uma roupa bonita, cabelo penteado e, quando mulher, ter a unha pintada, “quando há esse tipo de comentário, olham para mim, como se eu tivesse que me adaptar a isso”. Seus amigos de outros cursos até a questionam sobre isso, “Maiara, você precisa vir sempre assim, tão arrumada?”, e ela responde, “amor, não é que eu queira. Eu preciso para não tomar esporro. É o andar como dentista e ter cara de dentista”. Ela também conta que nunca teve dupla em disciplinas práticas, “eu nem sei se poderia atender sozinha, só sei que eu atendia”.

Diante desses problemas, Maiara optou por não fazer as provas do primeiro período e decidiu recomeçar no semestre seguinte. “Eu falei para mim mesma, ‘vou esperar um pouco, vou me dar um tempo e tentar de novo. Vou tentar de novo ano que vem. Às vezes, é um problema comigo’”. Retornou na segunda metade do ano, mas muitos dos problemas se mantiveram. Foi apenas em 2015, durante os 19 dias que estudantes ocuparam o campus da UERJ para protestar contra o atraso da bolsa dos cotistas e dos salários de professores e terceirizados, que Maiara começou a se sentir parte da universidade.

Ela foi uma das estudantes a ocupar a faculdade e lá começou a fazer amizades. Depois do movimento, decidiu montar uma chapa com amigos de odonto que conheceu durante a ocupação para concorrer ao Centro Acadêmico (CA) do curso, em 2016. Segundo ela, foi a primeira eleição para o CA de odontologia da UERJ. Foi apertado, mas a chapa que Maiara participava venceu: “a gente brinca com isso porque a gente diz que é um CA diferente de tudo que essa faculdade já viu. Tem um gay, uma velha, duas pretas, um japonês e uma moradora de Campo Grande”, conta rindo.

Após a ocupação e seu envolvimento mais de perto com esses tipos de discussões na UERJ, Maiara passou a se sentir melhor na universidade. Mas essa não é a realidade de todos. “Eu conheço uma menina que era negra e estudava aqui que desistiu da faculdade porque ela não aguentou. Ela dizia: ‘gente, eu me sentia perdida. Não conseguia me encaixar. Era um pontinho preto em um mar branco'”, conta Maiara.

Essa menina é Letícia Roque, de 22 anos, que entrou no curso de odontologia no início do ano de 2016 como cotista. Apesar do mesmo sobrenome, sua semelhança com Maiara começa e termina na falta de representatividade que ambas encontraram no início das suas vidas acadêmicas na UERJ. Logo após sua primeira semana de aula, a UERJ entrou em greve por quase seis meses, numa época de crise do Estado em que os professores e funcionários pediam ajuste salarial e melhoria das condições de trabalho. “A minha vida se atrasou por conta da greve. A vida de todos os estudantes se atrasou por isso”, lembra. Além disso, assim como Maiara, não se sentiu incluída na universidade, “o curso não tem negro, não tem pobre. Eu moro em Bangu, ia de trem à faculdade. A galera chegava de carro lá. É outra realidade”.

O pai de Letícia é negro e dentista. Sua visão sobre a profissão é baseada na história dele e nas dificuldades que passou, “é muito mais difícil um dentista negro que um branco. Na odontologia, é aquela imagem do branco. Não apenas branco como pessoa branca. Mas também aquele avental branco, limpinho. O que não acomete a gente, não abraça a gente”. Após a greve, Letícia permaneceu um tempo no curso e desistiu. Chegou a tentar nutrição também na UERJ, mas preferiu sair novamente. Hoje, faz terapia para tentar se recuperar desses problemas e recomeçar os estudos. Dessa vez, vai tentar um curso de humanas.

No pré-vestibular Redes da Maré, de onde veio Maiara, há diversos jovens que contam com as cotas para ingressar no ensino superior. Camila Felippe, de 21 anos, é um deles. Ela estuda na unidade da ONG na Vila do João e pretende fazer odontologia, mas também pensa em um curso de humanas, como história ou ciências sociais, provavelmente numa segunda graduação. “Eu pretendo futuramente estar atuando aqui na Maré com preços populares para ajudar aqueles que não têm tanto acesso. Porque é difícil aqui na favela ter um custo odontológico que caiba no nosso orçamento”, conta.

Camila está pelo segundo ano fazendo o cursinho pré-vestibular, mas sua rotina não conta somente com estudos. Ela precisa ajudar no bar da família, além de levar a mãe, que agora espera os resultados de um câncer que vem tratando, a algumas consultas médicas. A jovem estudou em escola pública a vida inteira: “foi bem complicado. Não conseguia manter um professor de química durante um ano. De biologia também. E, em certo tempo, eu também fiquei com deficiência com professor de matemática”.

Para Camila, a política de cotas vai muito além de uma busca por igualdade, é algo necessário. “A gente não tem a base, a gente não tem o que o ENEM exige, nosso déficit vem lá do ensino médio, lá do ensino fundamental. Mesmo aqueles que conseguem entrar em cota tiveram que ralar, três, quatro vezes mais. É uma coisa que a gente tem que estar batalhando sempre”. Indo contra às críticas de quem é contra o sistema, ela dá sua opinião: “ninguém é a favor das cotas. Eu acho um absurdo ter cota para negros, indígenas. Mas é necessário porque meritocracia não cabe aqui na sociedade que a gente vive”.