Os desafios do Jornalismo internacional

Os desafios do Jornalismo internacional

1 de setembro de 2018 0 Por Davi Barbosa

Reportagem de Bárbara Beatriz e Yuri Murta.

“A conexão entre a América Latina e a Europa está cada vez mais forte, por laços econômicos, sociais e linguísticos. Há uma ligação lateral importante”, afirmou Carlo Cauti em relação aos impactos que as crises no exterior têm nos países latinos. O jornalista italiano, que trabalha como correspondente no Brasil, participou da última mesa da Week Up – Semana de Profissões da ESPM Rio – onde explicou mais sobre a dinâmica da União Europeia e também sobre as relações externas do bloco.

Cauti veio para o Brasil como migrante econômico, em busca de melhores condições de vida. Além de jornalista, ele também é consultor da União Europeia no projeto “ALUE: Diplomacia pública da União Europeia na América Latina”. O objetivo desta iniciativa é informar através de palestras para alunos de jornalismo sobre as questões políticas, econômicas e sociais da Europa, buscando prepará-los para que tenham conhecimento ao tratar destes assuntos internacionais. “Eu vejo os olhos de quem assiste brilhando de interesse, uma espécie de luz ao ouvir coisas que aparentemente ninguém explicou antes”, comentou o jornalista, que diz nunca ter recebido uma crítica negativa em relação à “ALUE”.

Para a União Europeia, o resultado dessas palestras será visto a longo prazo: “O maior ponto positivo é saber que quando os novos profissionais entrarem nas redações amanhã, não vão escrever as mesmas besteiras que diversos jornalistas escrevem hoje.”, explica Cauti. Ele vincula as falhas da imprensa brasileira, principalmente em cobertura internacionais, ao despreparo e à falta de apuração: “Muitos jornalistas escolhidos para falar sobre o exterior não têm a mínima noção internacional. Não sabem quais são os tratados da ONU, nem quais são seus organismos… Para descobrir, é só olhar na internet o site da ONU e ver quem é quem na Organização.  É a típica falta de vontade de fazer o trabalho direito”.

Carlo Cauti, correspondente internacional. Foto: Bárbara Beatriz

Outra causa que Cauti atrela à falta de precisão do jornalismo brasileiro em coberturas internacionais, é a forte ideologia do país: “Há uma base fortíssima ideológica aqui no Brasil ensinada nas faculdades que na Europa a gente tenta evitar. Tem jornalismo de esquerda e direita lá fora também, mas acho que no jornalismo do Brasil muitas vezes falta o bom senso.” A questão da crise migratória é um exemplo de jornalismo mal formulado citado por Cauti: “Já vi diversos jornais brasileiros chamando essa situação de crise de refugiados. É uma questão de semântica a diferença entre as palavras ‘migrante’ e ‘refugiado’. Se for levada a sério essa diferença, a imprensa irá encarar o fato de que dos migrantes que entraram no Brasil, apenas 4% são também refugiados.”

Outro ponto criticado pelo jornalista italiano é a dificuldade em passar as noticias internacionais para os brasileiros. Para ele, isto ocorre pelo desinteresse da população, que é causado de forma natural pela grandeza do país: “O público brasileiro também é pouco interessado na política externa em geral, o que é até comum, pois por ser um país grande, geralmente o povo tende a olhar para dentro, já que acontece muita coisa aqui no Brasil.”

Apesar das criticas feitas pelo consultor da união europeia aos erros da cobertura internacional da mídia brasileira, ele afirma que estes mesmos erros acontecem no caminho inverso, muitos vezes provocando uma distorção da imagem do Brasil lá fora: “Uma das matérias que você mais facilmente vai vender lá fora é sobre a violência no Brasil. Violência, sexo, futebol e carnaval. É o que mais vende do Brasil lá fora. Obviamente é muito estereotipado, é muito exagerado, mas não é assim… É errado estereotipar mas também precisa falar que há um problema de segurança pública no Brasil que deve ser resolvido da melhor forma.” Ainda sobre o mesmo tema, Cauti afirma que é necessário mudar esta visão uma vez que não se pode ignorar uma potência de dimensões iguais as do Brasil que está entre as maiores economias do mundo, e o quinto maior país em extensão/população do planeta.