Origem asiática é motivo de orgulho

Reportagem de Caio Garritano

Uma cultura valorizada em casa, mas desvalorizada na rua. Sua mãe tentava aproximá-lo dos costumes e tradições de seus avós. Na escola, os amigos faziam piada com seus traços orientais. “Você não é brasileiro aqui, você não é japonês lá, então você é o quê?” Hugo Katsuo, aos 18 anos, tenta reconquistar uma memória perdida que vem de seu sobrenome, Othuki Okabaysahi. Estudante de cinema, ele milita pela cultura nipônica através da produção de pequenos vídeos para o YouTube, e um documentário para desconstruir a visão preconceituosa e acabar com comentários xenofóbicos e as piadas que envolvem os traços japoneses.

Hugo Katsuo, 18 anos, é filho de descendentes de japoneses e nos últimos anos tem tentado recuperar sua cultura nipo-brasileira | Reprodução: Acervo Pessoal.

Filho de descendentes de japonês, seus pais se conheceram em um evento de cultura nipônica. Sua mãe, Silene Othuki, ia por conta própria, já que seus avós não mantinham certas tradições, como falar japonês em casa. “Meu pai não quis colocar nome de japonês na gente, eu já quis colocar nos meus filhos, achando que ia ser um diferencial.” Diferente da família de Silene, Victor Hugo Okabayashi foi deixando para trás as tradições com o passar dos tempos, mas os seus avós paternos mantinham certas tradições e costumes dentro de casa.

Durante a infância, Hugo negava a cultura nipônica e buscava sentir-se igual àqueles com quem convivia na escola e na rua. Era na prática que sua mãe tentava passar esses costumes para ele e Isabela, sua irmã mais velha. Silene, por gostar e frequentar por vontade própria, também colocou os filhos logo cedo no curso, achando que eles teriam a mesma sensação que ela. “Eu sempre procurei mostrar para eles os costumes, né, comer comida japonesa, sempre fiz origami, artesanatos japonês, mas eles não mostravam muito interesse, não.” Apesar de ele parecer uma pessoa tímida, ela conta que Hugo sempre pareceu ser mais independente que a irmã, sem precisar de qualquer ajuda, ele ia direto para o computador pesquisar aquilo que tinha dúvida ou curiosidade. Por causa dessa independência, Silene só foi saber do preconceito que ele sofria na escola através de um desabafo nas redes sociais. “Uma vez eu li o que ele postou no facebook, e foi a partir daquele momento que eu vi ‘Nossa, eu nem sabia que ele sentia tanto esse preconceito no colégio’. Naquele dia que eu li, que fui perceber isso.”

Desde a década de 40, o preconceito contra japoneses cresceu junto ao sentimento nacionalista dado durante o período do governo de Getúlio Vargas. Priscila Nucci, doutora em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas, define o antiniponismo, “ Ideologias, manifestações e ações contra a imigração japonesa, e contra sua presença e a de seus descendentes no Brasil.” Ela conta que os estudos voltados para a cultura nipônica possuem recortes voltados para a “assimilação, integração e aculturação”, deixando de lado a xenofobia que vem crescendo no país desde a época da Era Vargas. Apesar disso piadas e comentários que ofendem os descendentes de japoneses, parecem incomodar mais essa nova geração que está chegando, e assim eles estão buscando combater e debater essas ideias preconceituosas.

No ensino médio, Hugo mudou, fisicamente, mantinha os mesmos traços, mas, agora, tinha novas responsabilidades, ideologias e problemas. Apesar das piadas xenofóbicas terem diminuído, ele ainda era alvo de áudios no grupo da turma, em que o xingavam e o chamavam de “japa”. Além disso, Hugo tinha que lidar com a pressão do vestibular, ser avaliado em áreas que não tinha habilidade o deixava estressado e ansioso. “Ele sempre se cobrou demais. Eu lembro que quando ele tirava alguma nota vermelha, ficava muito mal com isso.”, disse Laura Goloni, de 18 anos, que esteve com Hugo durante a maior parte do período escolar. A cobrança fez com que Hugo tivesse crises de ansiedade durante os dois últimos anos do ensino médio. Assim, ele teve que escolher entre manter as notas altas e continuar a ser o aluno certinho, ou cuidar da sua saúde. Entre faltas e aulas dormindo, ele se esforçava em casa para ir levando as matérias da escola, mas, principalmente, conseguir passar no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e conseguir uma vaga na faculdade no 2º ano. Ao mesmo tempo, Laura contou que ele foi se aprofundando na área que queria seguir e em paralelo, começou a retomar os conhecimentos sobre cultura nipônica. “Hugo é uma pessoa muito inteligente, eu lembro que ele sempre estudava além da matéria escolar. Ele quando se interessava por outras coisas, pegava elas e estudava.”

Aos 18 anos, Hugo dirige o seu primeiro documentário que traz como tema a cultura japonesa no Brasil. | Reprodução: Acervo Pessoal

Na Universidade Federal Fluminense, Hugo estuda cinema, mas no tempo livre pratica sua habilidade para escrever, assim utiliza a arte como forma de expressar o que o aflige. Ainda no início do curso universitário, ele já participou da produção de um curta e trabalha em um livro de poesias que possui o afeto como tema central, mas abordando outros assuntos, como a questão de raça. Responsável, ele demonstrava seriedade nos sets de filmagem de “Dando asas à imaginação”, trabalhando como 2º assistente do diretor Arthur Fiel, 23 anos. Segundo ele, Hugo, na época no 2º período do curso, trouxe conhecimentos que alunos mais adiantados ainda não tinham. “O Hugo se entrega ao que faz e faz da melhor forma possível. ”

Entre conversas de set, Arthur conheceu mais sobre a cultura nipo-brasileira e percebeu a importância da militância para Hugo. O diretor, além de incentivar, entende a relevância do projeto já que expõe os descendentes de japoneses que moram no Brasil, num recorte diferente, mostrando o direito deles de fazerem parte da nossa sociedade. Ele lembra de um Daruma que ganhou de presente de aniversário, boneco que representa o monge indiano que fundou o Zen Budismo na China.

Natasha Westenberg, aos 20 anos, conta que conversar com Hugo sobre os antepassados incentivou aos dois a pesquisarem sobre a cultura japonesa e a presença dela no Brasil. O país, em primeiro lugar no ranking com maior população japonesa e descendentes, possui cerca de 1,5 milhões de cidadãos com essa ascendência, de acordo com o Consulado Geral do Japão.  Concentrados no sul e sudeste, o bairro da Liberdade, em São Paulo, conta com 400 mil ascendentes. “Eu me sinto muito mais em casa, em São Paulo, eu me sinto mais pertencido a algum lugar mesmo, em relação a quantidade de asiáticos brasileiros lá, é muito diferente daqui do Rio.” Em duas visitas recentes ao estado, Hugo conheceu a maior colônia japonesa fora do Japão. Além disso, reuniu-se com grupos de militância asiático-brasileiras com diferentes recortes, como o feminismo e a homossexualidade, que deram a ele novos personagens para participar do documentário.

Bastidores do documentário dirigido por Hugo que trata da cultura nipo-brasileira. | Reprodução: Acervo Pessoal

Mariana Akemi, 21 anos, conheceu Hugo através deste projeto que ele está produzindo. Ela conta que retomar as memórias da cultura herdada dos avós foi resultado de uma ajuda mútua. Literatura, filmes e até heranças da família, ao dividirem todo esse conteúdo que consumiam eles aumentavam seus desejos por militar pela cultura japonesa. “Quando você encontra uma pessoa que está na mesma situação, que não se sente nem brasileiro, nem japonês 100%, eu acho que você acaba se encontrando com essa pessoa. É reconfortante você poder dividir essa experiência do que é ser nipo-brasileiro. ” Filha do dono de uma barraca de pastéis, Mariana conta que já sofreu preconceito em um dos finais de semana em que ajudava seus pais. Enquanto uma mulher a ofendia, dizendo que ela deveria voltar para o Japão, Hugo foi quem deu apoio e reconfortou-a, dando força para ela continuar.

Dessas amizades feitas durante a vida, baseadas nas semelhanças físicas e culturais, Hugo vem trabalhando para mostrar como os descendentes de japoneses, e principalmente, mulheres e lgbt´s nipo-brasileiros, vem sendo excluídos da sociedade brasileira. A ideia do documentário é também tentar fazer com que outros descendentes não passem pelo mesmo que ele sofreu, como por exemplo, em uma rede social em que por um comentário que ele fez, uma menina o respondeu falando que ele fazia parte de uma raça feia, porca e nojenta. Tentando atingir um público mais jovem, ele quer sair das mesmices de um documentário sobre o assunto, focando principalmente na preservação da memória como forma de militância. “ A gente se afasta dessa cultura para tentar atingir uma branquitude, atingir uma brasilidade, um aspecto de minoria modelo, ocidentalizado e totalmente assimilado e a gente acaba se perdendo na questão identitária, no final o que a gente é?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *