Pesquisa revela: 92% das mulheres jornalistas ouvem piadas machistas

Flávia Oliveira e Maiá Menezes na mesa  “Coberturas de gênero no jornalismo”/ Foto: Adriana Barsotti

Pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) revelou que 92% das mulheres jornalistas ouvem piadas machistas em seu ambiente de trabalho. E pior: 86% já passaram por alguma situação de discriminação de gênero. Foi o que revelou a jornalista Maiá Menezes, diretora da Abraji e editora-assistente da Editoria O País, de “O Globo”, na mesa sobre Coberturas de Gênero, na 4ª Semana de Jornalismo da ESPM Rio, realizada nesta segunda (6/11), na sede da faculdade, no Centro. A mesa também contou com a jornalista Flávia Oliveira, colunista de “O Globo” e comentarista do Estúdio I, da GloboNews, e da rádio CBN.

A pesquisa ouviu 700 jornalistas nas cinco regiões do país, por meio da aplicação de questionários. Também foram entrevistadas 12 profissionais, em grupos focais, durante quatro meses. As entrevistas foram anônimas e criptografadas para assegurar a proteção das vítimas. “Segundo o IBGE, 64% das jornalistas são mulheres. No entanto, só 37% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres”, ressaltou Maiá. Ela trouxe ainda um dado histórico: até 1950, não havia banheiros femininos nas redações.

A jornalista revelou também que boa parte do assédio às mulheres, principalmente em Brasília, vêm das fontes. “Muitas profissionais abandonam as pautas por este motivo. Isso afronta a liberdade de expressão”, observou Maiá. Para a diretora da Abraji, é preciso lutar contra a naturalização do assédio no jornalismo. “Algumas entrevistadas revelaram ter passado a vida inteira sem ter noção de que o que enfrentavam internamente era a dor do assédio”, afirmou.

 

Flávia Oliveira também revelou números preocupantes. Ela citou pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ações Afirmativas da Uerj, segundo a qual as mulheres representam somente 26% , 27% e 28% dos colunistas de “O Globo”, “da Folha de S.Paulo” e de “O Estado de S. Paulo”, respectivamente. “Quer dizer que só 25% das mulheres têm direito a expressar opinião?”, questionou a jornalista. A situação se agrava quando entra a questão racial. Em “O Estado de S.Paulo”, somente 1% dos colunistas são negros. Em “O Globo”, há 9%. “Eu represento 4,5%”, afirmou Flávia, lembrando que só há um colunista negro no jornal, além dela.

A presença feminina entre as fontes também é reduzida: somente 19% são mulheres, citou Flávia. Ela observou ainda que, além de os negros serem raramente consultados como fontes, predominam os estereótipos de raça na mídia. “O negro geralmente é representado como marginal. Em uma reportagem sobre o aumento da venda de carros, por exemplo, nunca se pensa em ouvir uma negra”, afirmou. Ela citou duas iniciativas que tentam promover a inclusão de fontes negras e mulheres no jornalismo. O blog Think Olga criou uma área “Entreviste uma mulher” e o Mundo Negro, “Entreviste um negro”. Ambos relacionam fontes que podem ser consultadas por jornalistas, relacionando suas áreas de atuação.

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