Punho firme

Quando a música começa a tocar em um show, o baterista se torna o líder. Ele pode não ser o líder fora do palco, mas dentro dele, não há outra opção. Se ele acelera, ou ralenta o ritmo, todos precisam acompanhar. Este instrumento é o que dá sincronia à música, o fator que determina o caminho que será percorrido pelo ritmo e pela melodia. É o elo entre os músicos e a base de uma banda. As escolhas que o baterista faz durante um show determinam o sucesso ou o fracasso do grupo. Estas escolhas, no caso da Açúcar Mascavo, estão nas mãos, e baquetas, de Vinícius Pitanga, de 19 anos.

Vinícius com sua bateria I Foto: Reprodução

Vinicius é líder nato e bom ouvinte, dizem seus companheiros de banda. Seus gestos com as baquetas deixam seu esforço, estudo e paixão aparentes. Em ação, ele passa a impressão de que toca bateria desde o berço. Sua energia é contagiante e a sonoridade vigorosa. Ao mesmo tempo em que domina a bateria, é dominado por ela.
Um dos atributos inerentes a um baterista é ser multi-instrumentista. Ao iniciar os estudos deste instrumento, é necessário tocar outros instrumentos e saber como eles se ordenam dentro de uma música. É preciso que ele escute e entenda, de imediato, do que a música precisa. Segundo João Pedro Rodrigues, baixista da Açúcar Mascavo, Vinícius é o chão da banda. Com sua experiência com outros instrumentos e seu conhecimento sobre música, trouxe à banda seu jeito eclético de tocar bateria. Para o baixista, é possível ter uma banda sem um bom vocalista ou guitarrista, “mas o baterista precisa ser bom”.
Segundo Francesco Nizzardelli, professor de bateria desde 2016, Vinícius “é excepcional, concentrado, focado” e tem as características que considera necessárias a um bom baterista: condicionamento físico, coordenação motora e bom ouvido. Inicialmente, o jovem baterista fazia duas horas semanais de aulas com dois professores diferentes. Hoje, faz uma hora. Ele alcançou, aos 19 anos, o nível de conhecimento que tem hoje em apenas 3 anos de estudo.
Para sua mãe, Cláudia Pitanga, “ele pensa e sente música o tempo todo”. A afinidade de Vinícius com a música é antiga e o caminho percorrido por ele até alcançar o patamar de conhecimento musical foi longo. A música também sempre esteve presente nos encontros de sua família, que giravam em torno de um violão, dedilhado pela sua tia Eliana. Beatles, Milton Nascimento e Rita Lee ecoavam na sala de jantar, durante as refeições. Sua mãe atribui a este hábito familiar o interesse de Vinícius pela música. Já ele, o atribui a própria mãe, que tocou violão até a juventude. Aos 4 anos de idade ele quis entender como aquilo funcionava. Produziu então as primeiras notas musicais de sua vida.
Ele queria se tornar o centro da roda nas festas da família. A música para ele sempre esteve relacionada com o ato de unir as pessoas. Iniciou os estudos do violão com um tio, foi fazer aulas aos 11 anos e depois partiu para outros instrumentos. Sozinho aprendeu guitarra, baixo, ukulele e teclado. Quando dominou estes, finalmente aceitou os convites de colegas da escola e entrou em algumas bandas. Mas ainda não tinha encontrado seu instrumento favorito, tocava o que precisassem na banda,
Na adolescência, os ensaios começaram a tomar uma grande porção do seu tempo. Sua dedicação aos estudos diminuía. Seus pais tentaram ensiná-lo a conciliar estudo e música, algo que eles mesmos não haviam conseguido. Cláudia abandonou o violão depois de começar a trabalhar como psicóloga e André Pitanga, pai de Vinícius, abandonou o piano assim que começou a estudar para o vestibular de medicina.
Mas Vinícius consegue. Dedica todos os dias da semana à música e aos estudos. Divide o tempo entre a prática da bateria com os ensaios das 4 bandas de que faz parte (Açúcar Mascavo, Drápula, Hoço e o projeto solo, ainda sem nome, de um amigo) e as duas faculdades que cursa, Produção Cultural na UFF e Produção Fonográfica na Estácio. Além disso, ainda faz questão de criar um tempo livre para se dedicar exclusivamente a ouvir música e procurar novas referências para o som de cada uma dessas bandas. Tudo isto está organizado em uma planilha de Excel salva em seu celular, que consulta ocasionalmente para confirmar as tarefas do dia.
Pelo número de bandas de que faz parte, pode parecer que ele toca bateria há muito tempo. Mas ele só começou aos 16 anos. Nesta época, ele, que sempre participou de várias bandas ao mesmo tempo, queria fazer da sua casa o ponto de encontro entre os grupos. O único elemento que faltava para que isso pudesse acontecer era a bateria. Já tinha violão, guitarra, teclado, amplificadores e microfones. Comprou então sua primeira bateria, uma eletrônica, em 2014. Começou a tocar sozinho, de brincadeira. Logo abandonou os outros instrumentos. “O que eu me considero hoje é baterista”, afirma.
Ele não sabe se seguirá carreira como baterista, apesar de amar o instrumento. Suas escolhas de graduação foram baseadas em um único fato: a vontade de trabalhar com música. Até o último ano do ensino médio, não fazia ideia do que fazer. Chegou a pensar em cursar música, mas já era tarde demais e ele não teria tempo suficiente para se preparar para o THE. Seus pais foram receptivos à ideia de produção cultural, escolhida por ele para produzir festivais e shows de música.
Depois de um ano cursando produção cultural, durante a gravação do primeiro EP da Açúcar Mascavo, ele acabou se interessou pela produção fonográfica, que começou a estudar em março de 2017. Esta escolha foi baseada em uma paixão: o trabalho com o áudio. Seja tocando em uma banda, produzindo algum grupo ou eventos relacionados à música, ele quer se formar nas duas graduações e trabalhar com algo que mantenha a música em seu dia a dia.

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