As redes sociais no combate ao assédio

Reportagem de Eliza Cunha e Victoria Mancino

 

O episódio da expulsão do médico Marcos Harter, de 37 anos, do Big Brother Brasil 17, por ter agredido sua namorada, Emily Araújo, de 20 anos, física e psicologicamente, reacendeu os movimentos de combate contra o assédio às mulheres por meio de campanhas na internet. Marcos e Emily  protagonizaram discussões que  revoltaram os espectadores do programa.  Após o desfecho da edição em que Marcos foi expulso, mulheres subiram a hashtag “#EuViviUmRelacionamentoAbusivo”, em que contaram histórias e situações vividas por elas. Segundo uma pesquisa feita pela Organização Internacional de Combate à Pobreza, ActionAid, 86% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio.

 

Discussão dos participantes do BBB17.

O apoio que Emily teve na internet é espelho de uma nova face do uso da ferramenta, a fim de confortar aquelas que sofrem algum tipo de assédio, seja verbal, físico ou psicológico. Aplicativos como o “Clique 180”, “For You” e o “SOS Mulher” são opções para quem busca informações, ajuda ou formas de denunciar casos de agressão, sendo, assim, exemplos de tentativa de auxílio às mulheres contemporâneas.

Perfil 365 Narcisas no Instagram.

A publicitária Layla Shpielman, de 24 anos, tenta, todos os dias, dar espaço para mulheres que desejam relatar os assédios já sofridos através de um perfil no Instagram chamado “365 narcisas”. O objetivo do projeto é mostrar que diariamente as mulheres são assediadas, e, assim, Layla posta um caso por dia no perfil, junto à foto da vítima mas, em alguns casos, ela permanece anônima. A estudante conta que nunca sofreu nenhuma circunstância traumática, mas procura sempre se colocar no lugar de quem já passou por isso. “Eu tento me colocar nas situações que chegam até mim, acredito que eu gostaria de falar sobre até não aguentar mais a história, para exorcizar isso dentro de mim, desmistificar um trauma”, disse. Para ela, o objetivo maior do Narcisas é mostrar para outras mulheres que elas não estão sozinhas e que existem outras com histórias semelhantes. “Várias vezes já li comentários nas fotos como ‘já me identifiquei’ ou ‘entendo sua dor’”, disse. Entretanto, Layla não deixa de lembrar o lado ruim da rápida disseminação de informação na internet: “é fácil humilhar uma pessoa e expor seus momentos íntimos”. Para ela, o que deve prevalecer é o uso da ferramenta de maneira positiva.

Rebeca Delgado, de 17 anos, estudante do Ensino Médio, teve sua história contada no Instagram e acredita que o lado negativo da internet ainda pode prevalecer. Isso porque, para ela, é um lugar perigoso devido à liberdade de publicações, seja para ajudar ou diminuir alguém. “É muito fácil alguém fazer um comentário machista, homofóbico ou racista e não acontecer nada com a pessoa, porque muitas vezes ela se esconde atrás de um perfil falso”, disse.  A estudante acredita no lado bom do perfil, mas diz que é necessário pensar antes de expor sua história: “Vai ter muita gente dizendo que a culpa é sua ou que você poderia ter evitado. É complicado”, lamentou.

Algumas mulheres tomam iniciativas sozinhas para desabafar e, assim, encorajar outras a fazerem a denúncia. É o caso da técnica e estudante de enfermagem Tharlís Isabelle Fontela Braga, de 21 anos, que expôs o caso que sofreu em seu Facebook. “Eu resolvi falar porque quis alertar outras meninas para não passarem pelo constrangimento que passei”, falou. Ela alega que a internet é uma arma contra o assédio: “A internet é um canal de denúncia e desabafo. Na maioria das vezes, o que a gente quer mesmo é desabafar. Ser reduzida ao pedaço de carne é pavoroso, denunciar é o primeiro passo para conseguir mover pessoas contra o assédio”, ressaltou.

Divulgação da campanha “Mexeu com uma, Mexeu com todas”.

Muitos casos recentes estão provando que mobilizações online podem apoiar as vítimas de assédio, como o manifesto “Mexeu com uma, Mexeu com todas”, organizado pelas funcionárias da TV Globo após a repercussão do caso de assédio sexual dentro da emissora envolvendo a figurinista Susllem Meneguzzi Tonani e o ator José Mayer.

Apesar das redes sociais serem um espaço que podem contribuir para as denúncias, dando voz às mulheres, elas devem recorrer à polícia para que as devidas medidas sejam tomadas. O programa “Mulher, Viver sem Violência” existe em parceria ao “Ligue 180”, disque-denúncia que envia os relatos para a Segurança Pública e para o Ministério Público de cada estado.

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