Mulheres organizam movimento nas arquibancadas do Rio de Janeiro

A presença de mulheres na arquibancada parece recente, mas, na verdade, existe desde o início do século XX, quando elas frequentavam estádios para acompanhar os jogos de seus maridos, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Elas vestiam luvas, característica da elite carioca da época e, com o calor, tiravam-nas, torcendo o suor. Surge então, o termo “torcedoras”, a partir de uma crônica do escritor Coelho Netto, nos anos 1920: “enquanto eles jogam, elas torcem”. Nasceram, assim, as torcedoras do Fluminense.

Integrantes da “Bravas da 52” reunidas no Engenhão, estendendo a faixa escrito “Lugar de mulher é na arquibancada”. / Foto: Luiz Fernando Pires

Porém, esse fato não muda o preconceito contra a mulher que acompanha o futebol, já que muitos acreditam que o esporte é voltado apenas para homens. Por isso, durante muito tempo, os estádios contaram com um público predominantemente masculino, mas hoje, muitas mulheres vão aos estádios e visam a lutar contra essa discriminação. É o caso da estudante de pedagogia, Yandra Guimarães, de 21 anos, que participa da organização do movimento feminino da barra do Fluminense, as “Bravas da 52” – referente à torcida “Bravo 52” – que há um ano está presente nas arquibancadas tricolores. “O nosso desejo era ter na arquibancada um grupo forte de meninas com uma paixão em comum: o Fluminense”, disse. A estudante contou que várias vezes participou de discussões por ouvir ofensas e xingamentos devido à sua presença no estádio, além de frases como “você só está aqui para acompanhar seu namorado e olhar as pernas dos jogadores”. Ela ainda mencionou que as meninas sempre se encontram para ir juntas aos jogos, a fim de que nenhuma fique sozinha. Elas também possuem um grupo no WhatsApp, onde procuram conversar sobre seus ideais e se aproximar mais. “A gente deve sempre ignorar qualquer tipo de preconceito, e principalmente, fazer nossa parte: ir ao estádio e torcer para o Fluminense”, disse.

Mulheres envolvidas com a Nação 12 no Maracanã / Foto: Instagram Oficial da Nação 12.

Segundo a pesquisa feita pela Pluri Consultoria, em 2012, o Flamengo é o time com mais torcedoras no Brasil, representando 48,4% do total de seus torcedores, sendo 14,4% de toda população feminina brasileira. A maquiadora Ana Furtado, de 22 anos, participa de um dos movimentos dentro da torcida do Flamengo, a “Descontrole Feminino”, anexada à “Nação 12”, e ajudou a iniciar o projeto nas arquibancadas, que teve início com um grupo no WhatsApp. “Quando eu cheguei, havia umas três meninas e eu queria fazer aquilo crescer. Fomos chamando mais gente e, aos poucos, fizemos esse número aumentar”, contou. Segundo Ana, o movimento existe há dois anos e procura unir as mulheres, acabar com discórdias e lutar para que o respeito prevaleça. Ela também relatou que os princípios das meninas se baseiam em apoiar o clube e ajudar aquelas que sofrem algum tipo de preconceito em casa por gostar de futebol: “nós temos o direito de fazer a nossa festa, somos um ponto de luta dentro da arquibancada”, disse.

A flamenguista relatou vários episódios de preconceito e assédio que sofreu nos estádios, como discriminação por estar carregando materiais – o que “era coisa para homem fazer –, além de já ter sido agredida. “Antigamente eu recuava, eu tinha medo e ficava constrangida. Eu preferia acreditar que não era comigo, mas hoje eu subo, balanço a bandeira na frente, me defendo e chamo alguém”, contou. De acordo com a torcedora, quando o grupo vê alguma menina nova, elas pedem o contato e procuram criar um laço, a fim de que ela se sinta à vontade para fazer parte do movimento. “É importante, porque sempre houve mulheres nos estádios, mas hoje tem muito mais, muito mais espaço e muito mais respeito. Antes as mulheres eram vistas como “as mulheres dos homens que estavam no estádio”. Nós queremos mostrar que não é só isso: a gente também ama o Flamengo e também gosta de futebol”, desabafou.

 

Integrantes das “Guerreiras Vascaínas” reunidas em São Januário / Fonte: Monique Ramos.

O Vasco também conta com as “Guerreiras Vascaínas” – da barra vascaína – nas arquibancadas há um ano, segundo a integrante e estudante de Nutrição Monique Ramos, de 24 anos. “Mulher pode frequentar estádio sim. Temos que fazer o grito feminino valer a pena e não ter vergonha de estar ali na arquibancada torcendo”, disse. Ela contou que, antes do movimento, ela se sentia insegura por achar que seria discriminada, mas hoje tem liberdade de estar na bateria e balançar bandeiras: “não somos mais um símbolo sexual como antigamente. Hoje temos mais liberdade devido à redução do preconceito”, contou. Monique disse que, independente do time ou da torcida, a mulher deve sempre ser incentivada a ir aos jogos para que o movimento feminino não morra: “a partir do momento que a mulher pode estar no estádio, ela pode estar em qualquer lugar”, disse. Segundo ela, o que mais afasta as mulheres das arquibancadas é o assédio, por serem vistas como frágeis, mas que a melhor forma de reagir é lutar diariamente contra o preconceito. “Se a gente não lutar, não tem como o movimento existir, não tem como conquistarmos nosso lugar, não só nas arquibancadas, mas dentro do futebol em si”, afirmou.

 

Manifestação do movimento “Loucas pelo Botafogo”, no Engenhão, em prol do respeito às mulheres / Foto: Vitor Silva, fotógrafo oficial do Botafogo.

No Botafogo, existe um movimento feminino dentro da barra brava que começou junto com sua própria criação. Segundo Letícia Rebello Rangel, de 30 anos, representante comercial e diretora de patrimônio da Loucas pelo Botafogo, desde o início havia meninas que mostravam o interesse por balançar bandeiras, participar das ideias e de cuidar do material e, por isso, resolveram tentar algo diferente. Ela diz que tem a esperança de que o panorama atual do futebol mude e conta com a presença da mulher para isso. De acordo com ela, a presença feminina pode ser essencial para inibir a violência nos estádios. “Não estou dizendo que não vá existir violência porque a mulher está presente. Entretanto, quando um homem vai ao estádio com a mãe, filha ou namorada, ele vai pensar duas vezes antes de brigar, até mesmo por seu próprio machismo, que o faz pensar que deve protegê-la”, disse. A torcedora falou que o preconceito é muito difícil de ser combatido, mas que com persistência e conscientização, o caminho se torna mais curto. “Não podemos desanimar, temos que pensar em convencer cinco, enquanto cem outros agem de forma machista”. Ela mencionou o projeto que o Botafogo aderiu junto a torcida, chamado “He for She” (Eles por Elas) da ONU Mulheres pela Igualdade de Gênero, que visa à quebra do preconceito envolvendo o homem e a mulher. O time apoiou a causa e entrou em campo com a faixa do projeto. “O projeto é importante para mostrar que não há nada que um homem possa fazer e uma mulher não possa”, disse Letícia.

Para a integrante da torcida Thamires Paes Leme, para expandir o movimento, é necessário um apoio geral. “Não adianta as mulheres lutarem sozinhas. Todos devem apoiar e jogar junto com a gente”, disse. Para ela, não tem porquê mulheres hesitarem ou terem medo de ir ao estádio: “temos que estar em todos os lugares, fazer tudo aquilo que queremos e gostamos”.

O movimento feminino no Rio, em geral, recebe apoio dos clubes que estimulam a presença feminina na torcida. Em 2015, o Vasco jogou com um laço rosa na camisa, em parceria com a Fundação Laço Rosa – que tem o objetivo de informar e combater o câncer de mama – para homenagear o Dia da Mulher. Em 2017, o Flamengo lançou um vídeo com a campanha “Mais mulher no estádio” e uma camisa comemorativa do clube. Botafogo e Fluminense já permitiram que mulheres com a camisa oficial dos clubes entrassem gratuitamente aos jogos para fazer crescer o número de mulheres na arquibancada.

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