A paixão que não cabe nos estádios nem nas camisas de time

O futebol aterrissou no Brasil destinado aos grupos de elite, mas a torcida logo se democratizou. É possível se apaixonar pelo esporte nas mais diferentes classes sociais, etnias, idades, gêneros ou físicos. No entanto, à medida que a modalidade cresceu e se tornou cada vez mais atraente o comércio de camisas de clubes, de Norte a Sul do país, um grupo em especial deixou de ser lembrado, como afirma o advogado Sylvio Vieira Rodrigues, de 57 anos: “Parece que o mundo esportivo não foi feito para gordinhos”.

Para muitos torcedores, o ato de passar nas catracas de estádio no caminho às cadeiras pode ser executado quase que automaticamente, porém, para Sylvio, de 120kg, a ação pode ocasionar um grande mal-estar. “Já tive o dissabor de ficar ‘atolado’ numa roleta de ônibus. Por isso, tenho pavor de passar por roletas, inclusive de estádios”. Como solução, ele sugere que invistam em uma entrada alternativa próxima às normais, onde as pessoas obesas teriam a possibilidade de escolha – atualmente, os obesos precisam sair da fila comum e entrar pela lateral. Outro ponto apontado por ele é o constrangimento com um agente da portaria ordenando que eles se encaminhem para os lados. “É muito constrangedor ter que deixar a fila para entrar pela porta lateral. Com a alternativa, seria menos pior e não caberia ao agente de portaria avaliar pelo tamanho do torcedor qual entrada ele deve utilizar”, opina.

A catraca é só o primeiro obstáculo no estádio de futebol. Lá dentro, ainda há a questão das cadeiras especiais (de tamanhos maiores, oferecendo uma maior comodidade). Em 2012, foi aprovada a Lei Geral da Copa, que determinava as regras a serem seguidas durante o mundial. Segundo esta, os 12 estádios construídos ou reformados deveriam reservar ao menos 1% dos lugares disponíveis para pessoas com mobilidade reduzida, cadeirantes e obesos. O percentual definido, contudo, é menor do que o estabelecido em 2004, que garantia a reserva de 4% dos lugares para todos os locais que comportem eventos. No entanto, os assentos especiais ainda são inexistentes em alguns estádios, como é o caso do Estádio Nilton Santos, administrado pelo Botafogo, segundo o torcedor Heitor Lims, de 44 anos. “Não há assentos maiores, apropriados, como em ônibus”, conta.

Cadeira especial, destinada a obesos, no estádio Maracanã. (Foto: Marcelo Santos/MFS)

No ano de 2015, de acordo com o sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), a porcentagem de pessoas obesas (IMC maior ou igual a 30kg/m²) era de 18,9%, enquanto 53,9% estavam com excesso de peso (IMC maior ou igual a 25kg/m²). Além de terem que lidar com os males à saúde que a obesidade pode gerar, também enfrentam o constrangimento e, em alguns casos, a exclusão.

Os tamanhos disponíveis para compra dos uniformes de clubes exemplificam essa barreira. Os próprios times e fornecedores limitam os tamanhos até o XGG. No caso das camisas femininas, a situação é ainda pior: a maioria só vai até o GG. Com isso, os torcedores que excedem esses tamanhos acabam ficando sem os uniformes. Foi o que aconteceu com o botafoguense Henrique Sergio, servidor público federal, de 49 anos. A última vez que ele conseguiu comprar uma camisa do clube de coração foi há 8 anos. “Depois disso, comprei camisa para o meu filho, para a minha esposa, para o cachorro, mas nunca para mim”, conta.

Como uma alternativa à falta de tamanhos maiores, Heitor Lims, técnico em enfermagem e vice-presidente da Folgada, torcida organizada do Botafogo, passou a produzir seus próprios uniformes em tamanhos maiores, que variam do P ao XXXGG. “Vinte por cento dos uniformes da Folgada são destinados ao povo XXXGG. Tenho um bom público tamanho extra grande”, explica. Além da produção desses materiais, ele também organiza um esquema especial junto com outros torcedores para levar a vice-presidente geral da Folgada, que pesa 200kg, aos jogos. “Fazemos um esquema com Uber e muletas disponibilizados pela torcida”.

Pensando nesses torcedores, o Botafogo, junto com a Topper, anunciou no mês de janeiro deste ano camisas de tamanho até 8G, além de 4G e 5G, maiores que os tradicionais GG e XGG. O clube alvinegro se tornou o quarto clube a exceder o XGG, junto com Flamengo, Fluminense e Grêmio. Com a iniciativa, Henrique fez questão de ligar para a loja de General Severiano e pedir um enxoval de artigos, como as camisas oficias de jogo e da comissão técnica. “Quero um estoque variado, não sei quando vou conseguir de novo”, diz o torcedor.

 

O torcedor Heitor Lims com a nova camisa do Botafogo de tamanho maior. (Foto: Acervo Pessoal)

A reportagem contatou as assessorias dos quatro grandes clubes do Rio sobre a questão dos uniformes e da comodidade em estádios, mas não obteve resposta.

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