Sobrevivente que ficou paraplégica no massacre de Realengo conta como se adaptou à nova vida

Reportagem de Isabelle Rodrigues, Karoline Kina e Raquel Prazeres

Três tiros à queima roupa a atingiram com a intenção de matá-la. Os disparos, que foram direcionados à sua cabeça, desviaram para a barriga e cintura, tirando os movimentos de suas pernas imediatamente. Thayane Tavares, que havia começado a praticar atletismo vinte dias antes do ocorrido, teve de passar por mais de seis cirurgias, foi desenganada pelos médicos e entrou em depressão, mas a sua fé em Deus foi fundamental para que pudesse enfrentar os desafios da nova vida.

No dia 7 de abril de 2011, Thayane acordou indisposta e, após a insistência da sua mãe, seguiu a caminho da escola. Ela conta que teve a sensação de que a primeira aula do dia parecia uma despedida: “Não era uma aula normal de Educação Física, era uma aula de futebol com as mãos dadas, com as meninas e os meninos juntos”. Já na sala de aula, ao perceber que a escola havia sido invadida, tentou se esconder mas, sem sucesso, ficou cara a cara com o assassino. Wellington apontou a arma na cabeça da menina e disse que ‘ela iria morrer por ser muito bonitinha’, mas os tiros desviaram, um deles causando uma lesão medular, que a deixou paraplégica.

 

Thayane antes e depois de perder os movimentos das pernas na tragédia. | Foto: Acervo pessoal

Durante dois anos, Thayane viveu momentos muito difíceis, especialmente para uma pré-adolescente. Precisava de ajuda para ir ao banheiro, sofreu com as frequentes idas ao hospital e perdeu sua privacidade pois recebia muitas visitas, inclusive da mídia, que queria fazer reportagens a todo instante. “Foi muito difícil, eu fiquei internada várias vezes com infecção urinária, cirurgia, vai e volta pro hospital o tempo todo. Foi assim até 2013, quando minha saúde deu uma estabilizada”, conta.

Apesar de toda essa experiência traumática, ela não aceitou nenhum tipo de ajuda profissional para superar a depressão. Ela conta que a falta de incentivo por parte das pessoas também fez com que ela recuasse cada vez mais na sua tentativa de progresso. Thayane afirma ter dado a volta por cima sozinha, através de sua força de vontade e de sua fé: “eu acho que se eu tenho a cabeça que eu tenho hoje, foi graças à Deus, porque se não fosse por Ele, eu não conseguiria de verdade”.  Além disso, ela também recuperou boa parte dos movimentos das pernas, já que sua lesão foi parcial e a evolução ocorre à medida que sua medula desincha.

 

Thayane em frente as estátuas feitas em homenagem aos mortos no massacre. | Foto: O Globo/ Reprodução

Após o atentado, a menina ainda terminou o Ensino Fundamental na Escola Municipal Tasso da Silveira, onde tudo aconteceu. No ano de 2016, ingressou na faculdade de direito, que teve de ser interrompida devido aos tratamentos que faz em São Paulo. Ela ainda tem muitos planos para o futuro, como voltar a praticar canoagem, esporte que passou a fazer parte de sua vida depois da tragédia, além de ter esperança de recuperar seus movimentos: “eu creio que vou voltar a andar. É uma coisa que vem de dentro e a gente tem que sentir, é pra quem acredita. Quando? Não faço a mínima ideia, mas eu vou. Estou lutando pra isso”, afirma Thayane.

 

 

Thayane atualmente, seis anos após a tragédia. | Foto: Isabelle Rodrigues

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